Um pueblo galego


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June 28th 2012
Published: November 20th 2012
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CanastrosCanastrosCanastros

Foram usados por muitos anos para secar os grãos e proteger a colheita dos animais e hoje tornaram-se marca registrada da Galícia.
Depois de um mês acordando cinco e tantas da manhã, caminhando entre 20 e 30 km por dia e carregando a “vida” nas costas, precisávamos de um pouco de descanso e fomos busca-lo no melhor lugar possível: na casa dos Abuelos (do Fe), ali mesmo na Galícia.



No estado em que nos encontrávamos, uma simples noite de sono em uma cama macia com lençóis limpinhos e mantas quentinhas, num quarto silencioso, escuro e privativo, após um longo e revigorante banho com água quente e abundante, encerrado com uma toalha felpuda e um pijama cheirosinho já era tudo com o que sonhávamos! Mas na casa dos abuelos, isso foi só o começo.



Numa missão clara de voltar a rechear nossas bochechas, trazendo de volta nossos quilinhos perdidos, além de garantir dois novos fanáticos pela deslumbrante gastronomia galega, nossos anfitriões nos premiaram com uma fartura incrível de quitutes deliciosos todos os dias! E além de nós, nossas roupas finalmente voltaram a ser tratadas com um mais cuidado e até voltaram a ficar branquinhas de verdade (até as meias!)! após algum tempo sendo castigadas nas nossas mãos e em algumas máquinas de lavar quinquagenárias de albergues.

Castanhas ao fornoCastanhas ao fornoCastanhas ao forno

Um cheiro divino das castanhas ao forno invade a cozinha...Dificíl é parar de comer.


Depois de tantos anos, nada como umas merecidas férias na casa de avós!



Foi um tempo especial perto deles, num lugar especial para eles, onde eles realmente se sentem em casa. E nos raros momentos entre uma refeição e outra, ainda pudemos aproveitar para conhecer e vivenciar um pouquinho da vida em um pueblo galego.



E pudemos perceber que é bem diferente quando equiparada ao estilo de vida que estávamos levando no Brasil. Claro que temos plena clareza de que estávamos comparando uma realidade que conhecemos profundamente, com todos os seus sabores e dissabores, já meio desbotada em nosso dia a dia, com uma outra em que tivemos uma vivência muito curta, superficial e carregada de cores pelo romantismo de sempre valorizar aquilo que é diferente do que se tem e de ser apenas um observador, um teórico, apenas desfrutando de algo novo. Mas é sempre bom traçar esses paralelos para aumentar nosso senso crítico e repertório de possibilidades.



Normalmente os pueblos galegos, mesmo rurais, concentram as casas de seus moradores em pequenos centros, rodeados por grandes áreas de terras, normalmente divididas em inúmeras pequenas propriedades para cada família.
Trilhas galegasTrilhas galegasTrilhas galegas

Para não perder o costume, continuamos as caminhadas desfrutando de belas paisagens da região.
Claro que existem os mais ricos e mais pobres, mas aparentemente, as condições são mais igualitárias que as de muitas regiões brasileiras. No passado, quando não havia uma mão forte do governo nessas áreas, as pessoas foram desenvolvendo formas de se apoiar e, talvez por isso, parecem viver de forma muito mais solidária até hoje. Antigamente, todos faziam uso de uma estrutura comunitária existente. Seus pães eram todos feitos nos moinhos e fornos de cada “bairro”. Também haviam áreas comuns em que as pessoas iam lavar e secar suas roupas. O sistema de irrigação nas terras de cada um também era compartilhado – cada um tinha seu horário de utilizar os canais que desviavam água para cada terra. Nas épocas de vacas mais magras, como durante a guerra civil, as pessoas passaram maus bocados, sem dinheiro, mas nunca ficaram sem comida, já que todos se apoiavam e que a região, como já dissemos, é riquíssima em qualidade e diversidade de alimentos.



Todas os quintais costumam estar forrados de pés de frutas, como cerejas, maçãs, pêras, morangos, pêssegos, figos, uvas, castanhas, além de legumes, verduras e galinheiros. Não raras vezes, as pessoas perguntam se você tem pão, frutas,
Coto do CastroCoto do CastroCoto do Castro

Vista de um dos inúmeros morros da região. Um fabuloso pôr-do-sol.
verduras, carne e vinho em casa – afinal, elas podem ter um pouco a mais para trazer para você.



E por aí vai: as frutas e verduras, logicamente orgânicas, vêm do quintal – se não do seu, de algum amigo ou parente. O pão vem fresquinho na porta de casa, pela minivan do padeiro. O mesmo acontece com os peixes, que chegam quase vivos na porta da sua casa. A água da torneira é potável, mas a melhor é a mineral, da fonte que vem das montanhas. E o vinho é pura uva, sem aditivos, vindo diretamente na produção caseira de primos e tios que vão fazer questão de garantir o seu consumo da temporada, com algumas garrafas da última safra. Junte todos esses ingredientes fresquinhos através das mãos alquímicas de uma abuela galega e você desfrutará de maravilhosos peixes, mariscos, empanadas e cozidos!



Pode ficar melhor? Claro! Nos dias certos de cada mês, chega ao pueblo a feira! E o clímax é o famoso e imbatível pulpo à feira, tradicional polvo feito em enormes tachos de cobre e temperado com muito azeite, sal, páprica e pimenta!



Apesar de ser uma
QueimadaQueimadaQueimada

Tradição pagã que resistiu o tempo de caças às bruxas, essa bebida à base de aguardente de uva deve ser tomada á noite, após ser flambada aos sons de um poema/feitiço para espantar coisas ruins e trazer poderes aos participantes.
região montanhosa no norte da Espanha, durante o verão chega a fazer bastante calor e o tempo é ideal para explorar as trilhas e caminhos nos morros da região ou aproveitar a gelada água das piscinas naturais entre os rios de águas cristalinas. Os pueblos costumam ser muito pequenos, então é possível fazer praticamente tudo a pé.



Esse foi o cenário ideal para nossa recomposição pós caminho de Santiago. E nesse contexto, parece o paraíso. Mas é claro que não é! Semelhante ao que acontece ou aconteceu no mundo todo, as pessoas mais jovens tendem a se mudar desses pequenos pueblos para cidades maiores, normalmente em busca de oportunidades de empregos. E esse movimento tem feito com que os pueblos galegos tenham perdido muita gente e, sobretudo, muita gente jovem. Chegamos a ler reportagens falando que em vários deles, nenhuma criança havia nascido no último ano. Também vimos diversas campanhas de incentivo para que as pessoas voltassem aos pueblos, mesmo que apenas nas férias ou tempo livre. Muitos deles estão envelhecendo ou até desaparecendo, ficando abandonados.



Ao contrário do que vemos em muitas cidades brasileiras, a maioria das cidades espanholas ainda não está sobrecarregada.
ParreiraParreiraParreira

Contam os abuelos que há muitos anos, todas as ruas do pueblo eram cobertas por parreiras. Fartura de uva e sombra em toda parte!
Existe uma infra estrutura que suporta a quantidade de habitantes. As opções culturais, de trabalho e lazer são muito superiores e a qualidade de vida parece ser muito boa. Isso sem falar que, salvo engano, a população espanhola é daquelas que tem uma baixíssima taxa de crescimento hoje. Com isso, aparentemente, um movimento contrário, de volta das pessoas aos pueblos ainda parece um pouco distante.



Esses pequenos pueblos têm uma estrutura muito maior quando comparada com a de um local equivalente no Brasil. Mas é claro que as opções são incomparáveis quando equiparadas a uma cidade maior. Por isso, para quem já se habituou a uma vida com mais opções, com todas as facilidades à mão, com acesso a tantas coisas, capaz de fazer tanto em tão pouco tempo, é difícil abrir mão de tudo isso e se imaginar passando todo o tempo de vida em um lugar tão pequeno. Mas vivenciar essa realidade oposta também abre os olhos para identificar outros tipos de desequilíbrios podem fazer parte da sua vida hoje.



Esse excesso de possibilidades que temos hoje também nos impele a fazer cada vez mais e a desfrutar cada vez menos. Mais quantidade, mais velocidade, menos qualidade, menos intensidade, menos profundidade. Qual o preço que se paga por todas essas opções? Realmente precisamos de tudo isso? Será que não é possível equilibrar melhor isso?



Às vezes sentimos a impressão de que não realmente fizemos todas as escolhas importantes de nossas vidas conscientemente. Pequenas decisões vão nos levando naturalmente pelos caminhos da vida. E eles sempre acabam nos ensinando coisas importantes. Mas se não pararmos de vez em quando para algumas reflexões, nos vemos dedicando anos de nossas vidas às prioridades erradas. Isso não necessariamente passa por uma transformação abrupta de escolhas de vida, mas ao menos de como lidar cada vez melhor com cada uma delas.


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CerejasCerejas
Cerejas

Não resistimos, fomos ao ataque!
Estrada localEstrada local
Estrada local

As estradas repletas vegetação e com muitas curvas cortam a região unindo pequenos pueblos e cidades maiores.
Piscina naturalPiscina natural
Piscina natural

Só faltou a coragem de pular na água fria.
Pulpo á feiraPulpo á feira
Pulpo á feira

Tradição deliciosa da Galícia essa iguaria pode ser encontrada nas feiras que rodam as cidades e pueblos da região.
TrilhasTrilhas
Trilhas

Paisagem corriqueira de caminhadas diárias.
Aprendendo a arte da queimada.Aprendendo a arte da queimada.
Aprendendo a arte da queimada.

Mouxos, corujas, sapos e bruxas....
Pueblo GalegoPueblo Galego
Pueblo Galego

Lindíssimas parreiras ainda adornam a casa dos que resistem por lá.
Pulpeira em açãoPulpeira em ação
Pulpeira em ação

Corta, recorta e tempera....uhmmm delícia!


20th November 2012

Momento amoroso da viagem!!
Que prêmio este paraíso amoroso, depois da dura caminhada. Vocês são especiais nos relatos. Beijos
21st November 2012

Quero só ver o brilho nos olhos dos abuelos quando eu ler este relato pra eles! E, sério, não sei se é por causa do valor afetivo da visita, mas vocês capricharam no conteúdo poético da narrativa. Beijos.
6th December 2012

Nossa chorei...
Que saudade de vcs! Que experiência maravilhosa... ah, acho que quero passar minha velhice na Galicia!

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