Chegada ao ChileNão há nada como tirar seu carro da garagem de casa e se deparar com uma placa dessas no meio do caminho
“Uma argentina, um chileno e, agora, um brasileiro”, disse uma mulher que aguardava a fila da imigração do lado de fora de seu carro ao ver a placa do meu, talvez tentando fortalecer os laços diplomáticos entre os três países. Dei um sorriso, acendi um cigarro e fingi estar procurando algo dentro do carro. Não estava com vontade de falar com ela. Um guarda me pediu alguns documentos que eu não tinha. Sabia que não podia confiar naquela fronteira caótica entre Brasil e Argentina. Preenchi um monte de papéis, recebi um monte de carimbos, um cachorro cheirou meu carro e os policiais confiscram meu salame. Seja bem-vindo ao Chile, o país mais organizado da América Latina.
Descer os Andes de carro é uma experiência fantástica. A estrada, conhecida como Los Caracoles, faz um ziguezague montanha abaixo que parece não ter fim. Depois se chega ao vale onde fica localizada Santiago. Os pedágios fizeram-me perceber que os pesos chilenos são traiçoeiros. Quando você pensa que está cheio de grana, pois um real vale duzentos e poucos pesos, percebe que o Chile é um país caríssimo.
Perto do centro de Santiago, ainda meio perdido, constatei pela primeira vez a obediência
incondicional dos chilenos às leis. Perguntei a duas senhoras que pararam ao meu lado no sinal como chegar a Plaza de Armas. Elas me indicaram o caminho. Acendi um cigarro. Elas vieram buzinando atrás de mim como loucas. Pensei que tivessem se enganado com o caminho, mas queriam me avisar que não é permitido fumar e dirigir no Chile.
A Plaza de Armas de Santiago talvez seja a mais vibrante de todas as que carregam tal nome. Sendo sua primeira impressão do Chile, ela joga por terra tudo que você ouviu sobre o desenvolvimento econômico e social do país. Uma mistura de indígenas maltrapilhos, pastores evangélicos e artistas decadentes cercada por quiosques de comida e executivos apressados. Entretanto, aqueles maltrapilhos fazem parte de um fenômeno ainda não muito comum no Brasil, com exceção de São Paulo: os imigrantes ilegais. A piada recorrente em Santiago, que me foi contada inúmeras vezes, é de que seria necessário um passaporte para um chileno entrar na Plaza de Armas, já que ali seria território boliviano. Absorver economicamente o imigrante e integrá-lo culturalmente são os desafios que países desenvolvidos devem enfrentar para, por fim, transformar o que tratam como um problema em solução, como
de fato deve ser vista uma imigração controlada e organizada, mas não a ilegal.
O albergue ficava na cobertura de um edifício na Plaza de Armas. O edifício abrigava salas comerciais, residências, consultórios médicos e o albergue, que foi um dos melhores que fiquei. Da varanda eu podia beber cerveja e ver a praça em movimento, com seus círculos de pessoas a se mover ao redor de evangélicos, bandas de música, mágicos e malabaristas. Conforme uma atração se acabava, a roda migrava imediatamente para um novo espetáculo, como se fossem espectadores profissionais. É o máximo de cultura a que eles têm acesso.
Santiago é atualmente um dos principais destinos turísticos dos brasileiros, e o albergue estava cheio deles. Conheci duas mineiras e um paulista, cujo nome já não me lembro. As mineiras estavam de partida naquela noite. Eu e o paulista fomos conhecer a noite da cidade. O cara do albergue nos indicou um bairro próximo ao centro. Bebemos algumas garrafas de cerveja enquanto esperávamos que as boates se enchessem. Naquele momento, concordamos que os chilenos eram o povo mais feio do mundo. Após alguma indecisão, escolhemos uma boate para entrar. Lá dentro, uma espécie de baile funk
chileno ocorria. Ao som do reggaeton, uma mistura de reggae e hip-hop, os casais faziam coreografias que, tirando o fato de estarem vestidos, em nada deixava a desejar ao Kama Sutra. Ao contrário do que imaginei, nenhuma mulher dava muita bola por sermos estrangeiros, enquanto os homens pareciam dispostos a nos encher de porrada. Quando um cidadão de um metro e meio esbarrou em mim, fazendo-me derrubar uma gota de cerveja sobre ele, imaginei que fosse me pedir desculpa. Mas ele, na verdade, estava nervoso com a gota em sua camisa ensopada de suor. “Você deixou cair cerveja em mim”, ele disse, me fazendo abrir um sorriso incrédulo. O paulista foi embora mais cedo. Por volta das cinco da manhã, enquanto a boate ainda estava lotada, fui embora também. Ninguém soube me indicar o caminho corretamente, ou então quiseram sacanear um brasileiro, mas acabei dando uma volta gigantesca para chegar ao albergue. O dia já estava claro quando consegui dormir.
Fiz, no dia seguinte, passeios tradicionais por Santiago. Fui ao Mercado Central, que conta com bons restaurantes de frutos do mar. Sentei no maior deles, o Donde Augusto. Cada mesa recebia um prato mais bonito que o outro. Pão
e ceviche em minha mesa, como entrada, me deixaram ainda mais esperançoso. Pedi uma recomendação para o garçom. Logo chegou a minha mesa o prato mais sem graça entre os que eram servidos. Era apenas um peixe empanado, não muito fresco, sem nada de extraordinário. Comi-o decepcionado. Caminhei de volta a Plaza de Armas e fui ao Museu Histórico, onde toda história chilena é contada, dos primeiros habitantes indígenas ao golpe militar de 73, quando uma futura ditadura comunista sanguinária foi deposta por uma ditadura militar sanguinária, mas que ao menos evitou a derrocada econômica iniciada por Allende. Obviamente, os crimes cometidos por Pinochet não se justificam, e qualquer ameaça à democracia deve ser repudiada. Tampouco posso afirmar que o governo Allende de fato se transformaria em uma ditadura sanguinária. Mas, de qualquer modo, o comunismo jogaria boa parte da população na pobreza, e, se não morressem por divergências quanto ao regime, morreriam de fome. Pinochet era um assassino inescrupuloso, antidemocrático e corrupto. Mas ao menos abriu o Chile para o mercado internacional, privatizou empresas públicas e investiu em infra-estrutura. Embora sua política econômica, ditada pelos experimentos monetaristas da Escola de Chicago, possa ter resultado na depressão chilena da década
de 80, os ventos do capitalismo sopraram com força no país, e formaram a base do que é o Chile moderno de hoje. Após os dogmáticos neoliberais de Chicago, que conduziram a política econômica até 1985, o economista keynesiano Hernán Büchi foi o responsável pelo segundo milagre chileno, colocando o país rumo ao desenvolvimento. Entretanto, não há como analisar a questão apenas com base em números e crescimento econômico. O tema é complexo, pois o terror espalhado pela Caravana da Morte de Pinochet marcou a vida de milhares de famílias. O desenvolvimento não deve vir a qualquer preço. Mas nem entre os chilenos houve consenso quanto a Pinochet. Quando houve a transição para a democracia, em 1989, e o governo militar foi posto à prova, 45% da população apoiou o General. Era o fim de um dos regimes mais controversos da história contemporânea, que, a despeito da brutalidade, deixou saudades em boa parte da população.
Encontrei o paulista no albergue. Saímos para tomar cerveja. Bebemos em um bar na Plaza. Ele iria embora no dia seguinte, por isso pretendia dormir cedo. Compramos uma pizza e voltamos para o albergue. Ficamos conversando com três argentinas, mas não havia cerveja para
manter o papo por mais tempo. Confiante na segurança de Santiago, saí às onze da noite pelo centro da cidade para comprar o precioso líquido, já que era proibido vendê-lo no próprio albergue. Entretanto, comprar cerveja em Santiago não é uma tarefa que pode ser realizada a qualquer momento do dia. Não havia um único estabelecimento aberto, um posto de conveniência, nada. Voltei com as mãos vazias, depois de percorrer quase todo o Centro. O cara do albergue, que estava conversando conosco por todo o tempo, resolveu então oferecer uma caixa de cerveja que havia guardado. Por ter me feito procurar tanto à toa, tive vontade de arremessar a caixa em sua cabeça. A cerveja, entretanto, estava completamente congelada. Enchemos um balde com água quente e as afundamos. Uma explodiu, outras viraram chá, quase nada se salvou. Todos foram dormir completamente sóbrios.
Caminhei pelo que me faltava conhecer de turístico de Santiago, como a biblioteca nacional e o Palácio de La Moneda, e procurei locais onde os habitantes freqüentam. Fui até o Cerro Santa Lucia, de onde se tem uma vista completa de Santiago. Passei em um supermercado e comprei a cerveja que estava devendo para o cara do
albergue, além de algumas para mim. Fiquei o resto do dia bebendo cerveja e observando a confusão da Plaza de Armas da varanda do albergue. Os evangélicos, aparentemente, estão crescendo no Chile, um país profundamente religioso e conservador. O divórcio só foi legalmente permitido no Chile em 2004. As missas da Igreja católica ficam lotadas. Liderados por padres carismáticos, os fies cantam e dançam euforicamente. Do lado de fora, os evangélicos tentam arregimentar fiéis com mais músicas e performances de pastores alucinados, o que gera as famosas rodinhas da Plaza. Um funcionário do albergue parou ao meu lado. Ofereci cerveja e cigarro, mas ele negou. Perguntei se ele era evangélico, ele disse que sim. Disse a ele que uma igreja evangélica no Brasil é a favor do aborto, mas ele não acreditou muito. Como qualquer chileno médio, ele era conservador em suas opiniões. Era contra casamento gay, aborto e gostava da época em que o divórcio era proibido. Quando perguntei, ele não admitiu a possibilidade de um dia se divorciar de sua esposa. Ele ao menos concordou que as rodinhas de evangélicos incomodam quem não compartilha da mesma fé. Depois ele preferiu falar, com bastante satisfação, do sistema educacional do
Chile.
Conheci uma escocesa e uma inglesa que estavam em meu quarto. Saímos os três à noite. Fomos a Calle Suécia, uma rua de classe média onde havia bares e boates. Paramos primeiro em um bar brasileiro. Três canadenses bêbados entraram animados. Eles se aproximaram de nós e pagaram drinques. Um deles ficou assombrado quando viu que eu falava inglês, como se um brasileiro falando sua língua fosse a coisa mais exótica que tivesse visto nos últimos tempos. Disse que estava indo à Patagônia, mas ele não fazia idéia do que fosse isso. Livramo-nos deles e fomos para outro bar. Era um bar onde tocava salsa. Os homens disputavam à tapa a oportunidade de dançar com a inglesa, que chamava atenção por ser loura, além de bastante ingênua. Ela tinha dezoito anos e estava viajando sozinha. Um chileno moderninho sentou-se à nossa mesa e puxou papo com ela. Querendo mostrar desenvoltura, gastou todo seu pobre inglês conosco. Perguntou de onde eu era, respondi “Iraque”. Ele ficou assustado. Disse a ele que saí de lá desde que meu pai fora morto na guerra. A escocesa veio para o meu lado. Ela disse que os homens na Escócia não são ousados
como os chilenos. Respondi que os brasileiros são parecidos com os chilenos. Ela resolveu comprovar minha alegação. Ainda fomos a mais um bar antes de voltar para o albergue.
Acordei tarde no dia seguinte, quando deixaria Santiago. Desci e comi rapidamente um cachorro quente. Despedi-me da inglesa e da escocesa. Meu carro estava em um estacionamento subterrâneo por todo o tempo, o que me fez pagar mais por ele do que pelo albergue.
Saí satisfeito de Santiago. Minha primeira impressão do Chile não poderia ser melhor. Fiquei feliz por ter visto além da pobreza da Plaza de Armas, por ter descoberto quem são aquelas pessoas. Muitos vão ao Chile na expectativa de se deparar com um país de primeiro mundo, mas se decepcionam à primeira vista de pobreza. Não é um país de primeiro mundo, é verdade, mas é um país que começa a se destacar daquilo que chamamos de América Latina, de seus estereótipos e líderes messiânicos. Nenhuma fórmula mágica foi utilizada no Chile para que esse patamar fosse alcançado, apenas as já existentes: economia liberal, redução da carga tributária, educação de qualidade e meritocrática, autoridades que fazem as leis serem cumpridas e sociedade consciente da necessidade
de cumpri-las. Tão consciente quanto extremamente obediente. Aos chilenos talvez falte apenas isso: obedecer às leis, mas também debatê-las. Há algo de errado em uma sociedade que agüentou tanto tempo sem o divórcio ser permitido. Onde o dono do albergue não fica revoltado por não poder vender cerveja em seu estabelecimento, onde as pessoas acreditam que cigarro e direção seja uma mistura fatal. São leis, devem ser obedecidas. Mas o debate é também uma forma de fortalecer a democracia. Isso, entretanto, os chilenos aprenderão com o tempo, que certamente os fará esquecer a época em que a divergência de idéias poderia ser reprimida com a morte.