O trajeto até a ilha deveria durar três horas, mais uma hora de barca. Mas um inesperado problema surgiu e quase comprometeu minha ida à Patagônia. Começou com um forte cheiro de gasolina dentro do meu carro. Pensei que fosse algo relativo ao meu problema em Rosário, um cheiro que talvez me acompanhasse desde lá e eu apenas não o tivesse notado. Então vi que o marcador da gasolina diminuía rapidamente. Quando parei o carro e vi um rastro de gasolina deixado por meu carro, percebi que o problema era um pouco mais grave. Parei em um pedágio e fui informado que haveria um posto de gasolina em doze quilômetros. Pisei fundo para conseguir o máximo de embalo em caso do carro parar. Cheguei ao posto com o carro já em pane seca. Expliquei o problema ao frentista e ele disse que o tanque devia estar furado. Provavelmente alguma pedra no caminho do vulcão deve ter sido responsável pelo furo. A solução, segundo ele, seria passar sabonete no furo. O problema seria achar o furo, pois o combustível parecia vazar por todo o tanque. O frentista tampouco conseguiu achá-lo. A cidade mais próxima era Osorno, a cerca de sessenta quilômetros de
onde eu estava. Enchi o tanque achando que seria o suficiente. Mas a gasolina começou a vazar mais rapidamente, e em dez quilômetros já estava acabando novamente. Achei outro posto, mas, como perdi a entrada, parei meu carro no acostamento da estrada e fui até lá. Uma chilena bonita e jovem, dona do posto, veio me atender. No início estava desconfiada, mas logo começou a se soltar. Aconselhou-me a chamar o resgate da rodovia, o que seria justo diante da enorme quantidade de pedágios pagos nas rodovias chilenas. Fiz o chamado, cujo atendimento se daria em uma hora. Enquanto isso, a conversa com a dona do posto começou a ficar, digamos, mais pessoal. Como era de se esperar, a chilena passou a lamentar sua vida entediante, a rotina de seu casamento e o desejo de conhecer o mundo além daquela estrada. Falou sobre sua preferência por homens morenos e altos, o tipo de homem que seu marido não era. Disse que ele era um homem mais velho, um trabalhador rural. Ofereceu-me água da bica do banheiro. Acompanhou-me até meu carro sob o olhar de censura do frentista. De onde estava o carro, não era possível ver o posto. Conversamos mais
um pouco. Quando ela percebeu a aproximação do reboque, enfiou sua língua na minha boca de forma estabanada, e então saiu correndo, como se fosse uma colegial após o primeiro beijo. O motorista do reboque, após ter visto a cena, perguntou se ela iria junto. Quando disse que não, a sua expressão de dúvida era evidente, mas, por mais que quisesse entender como em quarenta e cinco minutos eu já estava beijando uma chilena, nada perguntou.
Acidentes na estrada e futebol foram os assuntos sobre os quais conversei com o motorista até chegarmos a Osorno. Às duas da tarde, em plena hora da siesta, a cidade estava quase deserta. O motorista parecia querer se livrar de mim o mais rápido possível. Procurou duas oficinas, ambas fechadas para o almoço. Na terceira, também fechada, disse que precisava me deixar ali, afirmando que logo iria abrir. Guardei os dez mil pesos que lhe daria de gorjeta e passei a esperar. Nada indicava que no local havia uma oficina, por isso passei a procurar por uma. Após várias oficinas terem me dito não serem capazes de resolver meu problema, encontrei uma no fundo do quintal de uma casa velha. Meu carro teria
seu dia de Relâmpago McQueen, como no desenho Carros, em que um carro de corrida tem que passar um tempo cumprindo pena em uma cidade do interior.
Meu carro foi rebocado por um cabo até a oficina. Temendo a extorsão que poderia se dar após o conserto, não tirei foto da oficina para não me julgarem rico devido à minha câmera. Constataram que o problema era no filtro de combustível. O problema poderia ser facilmente sanado, contanto que eu encontrasse a tal peça. A cidade, por sorte, era repleta de lojas de autopeças. No entanto, nenhuma delas tinha o meu filtro. Vendo um estrangeiro, muitos vendedores tentavam ser solícitos, alguns até arriscando palavras em inglês, como se estivessem satisfeitos por finalmente poderem utilizar o pouco que aprenderam na escola. Sem paciência, após ter percorrido quase toda a cidade, comprei um filtro diferente mas que diziam ser para o meu carro, tendo o vendedor garantido a devolução do dinheiro caso não funcionasse. Às seis horas da tarde, meu carro estava pronto. Novamente me surpreendi por não ser achacado. Cobraram-me, um tanto constrangidos, seis mil pesos, algo como trinta reais. Menos de duas horas depois eu já estava na barca em
direção à Ilha de Chiloé.
Cheguei a Castro, a capital da Ilha, após mais uma hora de viagem. Já era noite quando comecei a procurar por albergues. O problema era que os locais que se diziam albergues era apenas hotéis um pouco mais baratos. Havia um albergue de verdade, mas em sua porta havia uma placa dizendo estar lotado. Sentei na soleira da porta deste albergue para procurar mais endereços no Lonely Planet. A dona, uma senhora com um metro e meio de altura, abriu a porta para dois hóspedes que chegavam. Perguntei se estava realmente lotado. “Você quer um quarto?”, ela perguntou. Disse que sim, e ela abriu um sorriso enquanto me mandava entrar. Fomos até uma espécie de sala de estar, onde ela perguntou a uma italiana e a uma suíça se eu poderia dividir o quarto com elas. Após elas permitirem, a dona disse para mim, com ar malicioso: “Viu como elas gostaram?”. Não vi nada disso, por isso apenas sorri, pois a velha dona parecia ser a única de fato empolgada com minha presença. Imaginei que houvesse três camas no quarto, mas eram apenas duas de solteiro. A dona disse que as europeias iriam dividir
uma das camas. Como não estava disposto a procurar outro albergue, não me opus. Saí para comer um sanduíche e fui dormir.
No dia seguinte caminhei por Castro, não sem antes comer um delicioso salmão recheado, uma das especialidades da Ilha onde abundam peixes. Apesar de ser uma ilha, as praias de Chiloé não são seu ponto forte. A fama do local vem das mais de cento e cinquenta igrejas espalhadas pela ilha e de suas lendas sobre seres mitológicos. Fui a algumas igrejas e a um museu, onde descobri que em Chiloé ocorreu o maior terremoto já registrado na história. No fim da tarde, voltei para o albergue. Preparei um miojo enquanto conversava com a italiana, que não falava nada além de italiano, e um holandês, que com extrema habilidade preparava um goulash, fazendo o meu humilde macarrão ficar do tamanho de uma ervilha. Como ele fez além da conta, me ofereceu um pouco. Como eu também não aguentei tudo, ele chamou um holandês que estava na sala para nos ajudar. Seu nome era Rutger, mas para facilitar o chamei de Roger nos dias seguintes. Ficamos conversando e bebendo vinho, e logo se juntaram a nós um eslovaco,
um alemão que estava viajando com seu pai e uma alemã. Após o vinho, fomos eu, Roger, o eslovaco e o alemão conhecer a noite de Castro. Paramos primeiro em um bar, tomamos algumas cervejas e descobrimos os locais onde a noite realmente acontecia. Porém também descobri, através de uma garota com quem falei no bar, que não deveria me animar muito: “Quase todas aqui já são casadas”, sentenciou. Fomos até uma boate. Chamávamos atenção, pois éramos os únicos gringos no local. Duas garotas olhavam para mim e Roger, e fui até lá falar com elas. Apresentei o holandês e, sob efeito de alguns Pisco Sours, ficamos dançando. A minha, claro, era casada, enquanto a de Roger dançava sensualmente à sua frente, mas ele, um tanto tímido, mantinha distância. Fui para a pista de dança. O alemão conversava com uma linda chilena e o eslovaco tinha ido embora. Uma morena maravilhosa dançava salsa com outro cara, mas não parava de me olhar. De repente ela largou o cara e me arrastou para dançar. Disse a ela que era um péssimo dançarino, ainda mais de salsa, mas ela insistiu. Seu veredicto saiu em menos de um minuto: “É, você não sabe
mesmo dançar”, e me trocou pelo sujeito anterior. Voltei para onde estava o Roger e o encontrei sozinho. Disse que a garota tinha ido ao banheiro há uns vinte minutos. Quanta ingenuidade. Voltei para a pista de dança e a encontrei com uma amiga. A amiga me chamou e disse que eu deveria dançar com ela. Felizmente, a salsa havia acabado. Dancei da forma como ela havia esperado que Roger dançasse. Talvez um pouco além do que ela esperava. Combinamos de nos encontrar no dia seguinte.
Na saída da boate, já acompanhado por Roger, a morena se despediu de mim com um abraço. O holandês, que não viu nada do que ocorreu na pista de dança, não entendeu o entusiasmo da chilena comigo. Quando pensei em contar a ele a história, ele agradeceu pela noite, dizendo que eu fui muito legal em apresentá-lo a garota. Achei melhor ele não saber a verdade. Sem o alemão, que, conforme descobrimos através da dona do albergue no dia seguinte, teve uma noite bem melhor que a nossa com sua chilena, fomos dormir.
No dia seguinte, eu e Roger fomos dar uma volta de carro pela Ilha. Conhecemos alguns lugares em que
seria impossível chegar sem carro, e mais uma vez encontrei uma casa ideal para passar minha velhice. Sem a altitude da Ilha do Sol, a Ilha de Chiloé parece mais atraente. Ao longo da estrada, mochileiros imundos pediam carona. No momento em que lamentávamos a falta de mulheres fazendo o mesmo, duas garotas surgiram com seus dedos polegares em riste. Parei imediatamente, mas logo me arrependi. As duas também eram imundas. Para piorar, quando paramos em uma praia para visitar mais uma igreja, encontramos os restos mortais de algum animal não identificado. Uma das duas, para tentar determinar a espécie do animal, enfiou a mão na carcaça e nos exibiu o crânio apodrecido, afirmando tratar-se de um cachorro. Segurando o vômito, confirmei com a cabeça. Após a visita à igreja, nos livramos das duas hippies. Voltamos ao albergue. A italiana que só falava italiano estava lá. Propusemos que nós comprássemos os ingredientes e ela cozinhasse uma comida italiana. Sua sugestão foi espaguete à Carbonara. Terminamos as compras por volta das sete horas, o horário em que havia combinado de me encontrar com a chilena da boate. Todavia, não tive coragem de contar ao Roger sobre o ocorrido, ainda mais depois
de ter ouvido por várias vezes ele dizer como a noite anterior havia sido divertida. Preferi seguir para o albergue e comer o macarrão, que, de tão bom que ficou, talvez tenha me proporcionado o mesmo prazer.
Algumas garrafas de vinho depois, resolvemos sair. Enquanto Roger tomava banho, conheci duas suíças: uma morena linda e uma ruiva horrorosa. A partir deste momento, cada fato contribui para um dos mais terríveis acontecimentos da minha vida. As duas saíram conosco. Paramos no bar onde comi o sanduíche no primeiro dia e bebemos alguns pisco sours. Como era domingo, o local fechou cedo. Mudamos para um bar onde cada um pagaria uma rodada da bebida que escolhesse. Uma mistura que logo deixou todos alegres. Mais um bar fechado, saímos para procurar algo para beber. Caminhando pelas ruas, um rastafári nos abordou, dizendo ser brasileiro, apesar de seu sotaque português sugerir que ele fosse angolano. Os europeus, ingênuos em relação a esse tipo de gente, deram conversa a ele, que logo estava cantando e nos seguindo. Ele disse conhecer um lugar onde poderíamos comprar cerveja. O local era apenas uma quitanda já fechada que vendia cerveja quente através da grade. Como o sujeito queria cobrar pelos copos plásticos, bebemos no gargalo. Ninguém quis ser “humano” a ponto de oferecer o gargalo para o mendigo, e isso provocou sua ira. Ela passou a gritar que éramos racistas, como se não fosse o fato de parecer que ele não tomava um banho há um bom tempo que tivesse motivado nosso asco. Seguimos para a praça e lá bebemos a cerveja. O mendigo logo surgiu novamente. As suíças então disseram que eu, por ser brasileiro, deveria saber dançar. Decidi demonstrar minha falta de habilidade para a mais bonita. A feia nos olhou de forma irada. Neste momento, quando eu deveria ter desprezado sua indignação, fiquei penalizado com sua situação e tive a infelicidade de chamá-la para dançar. Ela, por sua vez, não teve pena alguma de mim, impedindo-me de qualquer escolha que não fosse aceitar suas ousadas investidas. Ao menos soube, no fim da noite, reconhecer o esforço que fiz. “Muito obrigada” foi a formal sutil que encontrou para reconhecer o imenso favor que a fiz. Assim como Roger me agradeceu por tê-lo pedido para abrigar em seu quarto uma linda suíça que, vendo seu quarto ocupado, não tinha onde dormir.