Que no Chile há uma divisão entre brancos e indígenas, isso pude perceber já em Santiago. Mas o tamanho da divisão pode ser mais bem notado em Pucón, o balneário dos milionários chilenos. Lá, na verdade, não há divisão, mas sim uma absoluta exclusão. Não fossem os indígenas que trabalham nos bares e lojas, eles não seriam vistos na cidade. Todavia, para mim é difícil afirmar se há racismo no Chile ou se o problema é meramente educacional. Claro que, na acepção pura de racismo, pode-se dizer que ele existe, visto que um índio, mesmo com algum dinheiro, seria mal visto em um local freqüentado por brancos. Mas a tensão entre raças é sempre assim: não se define por indivíduos, mas sim pela coletividade. E quando essa coletividade passa a ser tratada indignamente, há racismo. O mesmo ocorre com os asiáticos. O paulista que conheci em Santiago, a convite de dois amigos chilenos bem-sucedidos, foi ao clube de pólo de Santiago, o mais exclusivo da capital chilena. Conforme ele me disse, o clube não aceita asiáticos, mas o embaixador do Japão é um de seus abastados sócios. Provavelmente mal visto por muitos, mas, ainda assim, aceito. Fatos como esses não ocorrem
no Brasil, apesar da insistência das ONGs de direitos raciais em tentar nos impor a existência de um racismo endêmico no país. Em qualquer país da América espanhola essa divisão é vista, mas no Chile ela salta aos olhos. Não por serem os chilenos mais racistas, mas sim por serem mais ricos que os outros, como Peru e Bolívia. A divisão racial chilena é acentuada conforme o aumento do topo da pirâmide, inexistindo qualquer mistura entre as classes. É extremamente difícil distinguir o que é racismo e o que é preconceito pela classe social que tal raça representa, se é que há tal distinção. Entretanto, pelo que vi em Pucón, há uma enorme barreira racial no país.
Cheguei a Pucón à noite. Passando de carro pela avenida principal, imaginei que viveria noites inesquecíveis por lá. Bares lotados de jovens maravilhosas e bronzeadas, ruas cheias e som alto. Porém, sem conhecer as pessoas certas, sem estar no albergue certo, as coisas podem não ocorrer como planejado. E meu planejamento terminou assim que cheguei ao albergue que havia reservado. Como estava fumando um cigarro, parei na porta para terminá-lo enquanto olhava o interior do albergue por uma janela. De repente um
cara meio debilitado mentalmente saiu pela porta e perguntou o que eu queria. Sem minha mochila, fumando um cigarro e espiando o interior de forma suspeita, disse que tinha uma reserva. Ele repetiu várias vezes que estava lotado, sem ao menos conferir algum papel. Teria que, mais uma vez, sair em busca de abrigo. O conceito de albergue em Pucón é um pouco diferente. Em geral são casas de famílias que alugam seus quartos para garantir um dinheiro extra no verão. Após algumas tentativas frustradas, encontrei uma casa com vaga. Mesmo com a casa quase toda vazia, fizeram-me trocar de quarto três vezes antes de eu voltar para o primeiro. Tomei um banho e saí para comer alguma coisa. Parei em um bar com garçonetes bonitinhas, comi um sanduíche e fui dormir.
Acordei com o barulho de pessoas que visitavam o quarto. Ao se depararem comigo dormindo, perguntavam assustadas se teriam que dividir o cômodo. Almocei em um restaurante indicado pelo guia, onde comi uma truta acompanhada por um arroz espetacular, e fui visitar o vulcão Vila Rica, um dos mais ativos do mundo. Foi o primeiro grande teste do meu carro. Naquele momento, imaginei que ele tivesse superado
sem problemas a estrada de terra esburacada, e também pensei que não tornaria a pegar uma estrada tão ruim. Em alguns dias saberia que minhas duas previsões estavam erradas. Visitei uma caverna e tentei escalar o vulcão, mas fui iludido pelo tamanho da montanha e, por mais que eu andasse, não conseguia me aproximar dela. Minha aventura serviu apenas para rasgar a sola do meu tênis preferido.
Fui transferido de quarto novamente. Fritei bife e batatas para a janta. As batatas grudaram na panela e precisei de quase uma hora para limpá-la. Voltei ao bar da noite anterior, onde as garçonetes eram bonitas e a bebida barata, especialmente antes das onze, quando qualquer bebida lhe dava direito a outra dose grátis. Sentado ao balcão, pedi sugestões à garçonete. Ela me ofereceu Pisco Sour, a bebida cuja paternidade é disputada por chilenos e peruanos. Bebi as duas doses. Depois, duas doses de Amaretto Sour,um Pisco muito mais doce. Bebi mais duas de Pisco para comprovar sua melhor qualidade. Cheio de drinques, pedi cerveja. Em alguns instantes era o centro das atenções das garçonetes. Passei horas conversando com elas. Infelizmente, a mais feia passou a ser a mais insistente. Infelizmente, em
estado de embriaguez, não percebi quão feia era ela. Ainda mais infelizmente, quando já tentava me equilibrar para ir embora, o dono do bar disse que a garçonete feiosa tinha gostado de mim. Bêbado e pesaroso, perguntei a que horas ela sairia no dia seguinte e combinei de passar por lá.
Acordei, almocei alguma coisa e fui para o encontro. Não fazia muita idéia do que iria encontrar. Encontrei algo pior do que poderia supor. Seus dentes desafiavam a lei da física que afirma ser impossível dois corpos ocuparem o mesmo lugar ao mesmo tempo. Nem sua boca fechada era capaz de disfarçar aquele imenso desastre da história da anatomia odontológica. Nada pude fazer senão me conformar. Em três horas, ela teria de voltar ao trabalho. Bastava tomar alguns chopes e conversar bastante.
Para tornar minha tarde ainda mais triste, fomos beber na praia. Ao meu redor, lindas chilenas se bronzeavam em pequenos biquínis, enquanto eu tomava cerveja com meu monstrinho chileno. Senti-me um estrangeiro em Copacabana desfilando com uma prostituta horrorosa, quando todos ao redor comentam: “Esses gringos são malucos”. Para evitar qualquer insinuação sexual, fiz da política o único assunto possível, e até que ela entendia
bem seu país. Três horas depois, consegui me livrar incólume de sua presença. Acompanhei-a ao ponto de ônibus e voltei à praia para enfim poder observar sua beleza.
À noite fiquei no albergue conversando com uma brasileira meio grunge que dividia o quarto comigo e com o segurança da casa, um baixinho cheio de histórias mentirosas. Uma briga entre a dona do local e um hóspede foi o entretenimento da noite. Dormi cedo, disposto a chegar ao meu próximo destino, a Ilha de Chiloé, um pouco mais descansado.