Dois motivos me levaram a Rosário. O primeiro foi que, durante minha primeira viagem à Argentina, os argentinos foram unânimes em apontar as mulheres de Rosário como as mais bonitas do país. A segunda foi a pergunta feita pelo guia Lonely Planet, que, ao indicar em um mapa as principais atrações da Argentina, tinha sobre a cidade de Rosário o seguinte texto: “A cidade argentina perfeita? Você decide!”. Bem, eu decidi. Não é, nem de longe, a cidade argentina perfeita. Mas gostar ou não de um lugar muitas vezes depende das experiências que você tem por lá. Talvez o cara que escreveu o Lonely Planet argentino tenha se apaixonado por uma linda rosarina, embora eu também não tenha visto tantas beldades assim.
O caminho até Rosário talvez tenha sido o mais difícil da viagem. Cheguei a Uruguaiana, a última cidade brasileira antes da fronteira, ainda de manhã. Comi alguma coisa em um posto de gasolina e fui à rodoviária da cidade trocar dólares por pesos, já que haviam me dito ser ali a melhor cotação. Mas não era. Na fronteira, que mais parecia a Faixa de Gaza, com pneus pegando fogo, fumaça, exército e cachorros sujos, havia uma casa de
câmbio com cotação melhor. Fiz a imigração e segui viagem. A estrada melhorou bastante do lado argentino, mas constantemente a chuva caía para atrapalhar o ritmo. Perdi algum tempo passando por Paraná e Santa Fé, duas cidades grandes. Quando me desvencilhei de tudo isso, percebi que minha previsão de quilômetros para Rosário estava errada. Em vez de 800 km, como havia calculado, seriam 1.100km.
A estrada então seguiu em uma longa reta. Ao longe, mas um pouco à esquerda da estrada, uma violenta tempestade despontava. Torci para a rodovia ir para a direita, mas ela seguiu em direção à chuva. Em pouco tempo, uma das chuvas mais fortes que já vi começou a cair. Relâmpagos, trovões, vento, tudo que pudesse deixar a visibilidade quase nula. Eu já estava dirigindo havia mais de dez horas e ainda faltavam duzentos quilômetros. Parei em um posto de gasolina para descansar e tomar um café. Vários motoristas também aguardavam uma trégua da chuva, mas a espera foi em vão. Resolvi seguir em frente. Quando faltavam cem quilômetros, a chuva começou a cessar. Cheguei a Rosário exausto, mas o pior ainda estava por vir.
A cidade era muito maior do que imaginava, e
estava me dando trabalho encontrar o local onde pretendia ficar. Parei para abastecer o carro. O frentista perguntou: “Gasoil?”. Pensei que Gasoil pudesse ser um tipo de gasolina, e o frentista não soube esclarecer o que era. Mandei encher, me informei sobre como chegar ao meu destino e segui. Segui por quinhentos metros, quando o carro começou a engasgar, desligar e fazer um barulho estranho. Por sorte, logo à frente havia outro posto. Ninguém acreditou quando disse que tinha posto gasoil no meu carro. Não sabiam quem era mais burro: eu ou o frentista. Os dois palermas do posto não sabiam muito bem o que fazer. Eles então ligaram para alguém. Vinte minutos depois chega um fusca em alta velocidade, dá um cavalo-de-pau no posto e de dentro sai um argentino malandrinho, todo falante. Ele perguntou o que aconteceu, para onde eu ia e tudo mais. Para cada resposta minha ele tinha uma expressão de deboche em sua cara. Mas era minha única salvação, eu era obrigado a aturá-lo. Ele então entrou no meu carro, tirou tudo do banco de trás, levantou o assento e trouxe uma máquina para sugar o combustível. Levou uma hora e meia até que tudo
fosse sugado. Minhas pernas já tremiam de exaustão. Acostumado com mecânicos brasileiros, estava pronto para ser extorquido pelo argentino malandro. Perguntei quanto cobraria pelo serviço e, coçando a cabeça e desviando o olhar, ele pareceu constrangido. Falou 50 pesos de forma hesitante. Vinte e cinco reais. Concordei imediatamente, e ainda dei dez pesos para um dos dois palermas. Eles provavelmente me acharam um idiota.
Minha via crucis estava quase no fim, mas ainda havia tempo para mais adversidades. Os dois albergues da cidade estavam lotados. Eram duas horas da manhã e eu ainda andava por Rosário em busca de um abrigo. Finalmente encontrei um hotel. Era um pouco acima do que pretendia pagar, mas não tive opção. Morto de fome e cansaço, consegui dormir.
Dormi o suficiente para acordar bem disposto no dia seguinte. A primeira coisa a fazer na argentina seria, obviamente, matar meu desejo de comer um bife de chorizo. Encontrei um restaurante recomendado pelo guia e tive o prazer de comer um dos melhores pedaços de carne da história da humanidade. Aquele bife tem grandes chances de ser meu último pensamento antes de morrer. Um orgasmo gastronômico acompanhado por batatas espanholas, que são iguais às
nossas batatas portuguesas, mas foram introduzidas por colonizadores diferentes. Por sorte, exceto em Buenos Aires, ainda é permitido fumar dentro dos restaurantes, pois eu não teria condições de me mover antes de algumas tragadas. Depois, visitei os pontos turísticos da cidade, sendo o principal o monumento à bandeira argentina, pois em Rosário ela teria sido desfraldada pela primeira vez. Realmente uma bandeira tão original como a argentina merece um enorme monumento em sua homenagem. Uma chuva tão forte quanto a do dia anterior começou a cair, fazendo todos se protegerem sob a marquise do monumento.
A cidade não apresenta nada de especial que a faça merecer o título de “cidade argentina perfeita”. Apenas algumas casas coloniais dão certo charme a algumas ruas. Com mais de um milhão de habitantes, ela não é aconchegante ou organizada. Barulhenta e nervosa, o único lugar mais calmo fica no parque às margens do rio, onde pescadores buscam seus proventos em suas águas turvas.
Há também em Rosário um monumento em homenagem aos heróis da Guerra das Malvinas, a mais louca obsessão argentina. Aparentemente, na Argentina, você pode falar mal de Maradona, Evita, Borges, qualquer coisa, mas eles somente se ofendem se você
debochar das Malvinas. Pelas estradas, a cada quilômetro surge uma placa dizendo que as Malvinas são argentinas. Outro fato curioso é a imensa quantidade de argentinos que não idolatram Che Guevara. Curioso não por ele merecer qualquer idolatria, mas por isso ocorrer em um país que flerta constantemente com o mais rasteiro populismo. Em Rosário fica a casa onde o assassino fedorento nasceu. Atualmente, já livre de idealismos juvenis, não vejo mais qualquer qualidade no líder revolucionário. Sei das milhares de mortes desnecessárias que causou, de sua brutalidade excessiva e, ao término da revolução, anacrônica. Mas isso não faz com que a tal casa deixe de ser alvo de curiosidade, assim como também deve ser a casa onde nasceu Hitler. Mas assim que tirei uma foto da fachada do prédio, onde não há nenhuma menção ao famoso ex-morador, um velho argentino me abordou, primeiro em inglês, depois, ao saber minha nacionalidade, em espanhol, não escondendo sua frustração por desperdiçar seu tempo com um brasileiro: “Ah, brasileiro...Che não era nada antes de morrer. Você só tira essa foto porque ele morreu”. O velho tem razão. A morte prematura de Che lhe conferiu certa vantagem em relação aos sobreviventes. Ele não teve
tempo para se transformar em um parasita comunista. Mas ele não precisava demonstrar raiva por eu tirar aquela foto. “Era um assassino. Por que você não vai ao parque da cidade?”. Perguntei onde ficava. Era um tanto longe, mas disse a ele que iria. Em vez disso, parei em um bar para tomar café. Entre um gole e uma tragada, fui abordado por outro velho. Ele perguntou se o açougue do outro lado da rua já estava aberto. Disse a ele que não sabia de nada, que eu era brasileiro. Ele pediu desculpas três vezes. Quando parecia ir embora, voltou: “Brasil, não é? Eu estive no Brasil em 1982...”. Durante os próximos vinte ou trinta minutos, o velho contou sobre sua aventura brasileira, fazendo questão de mencionar detalhes que demonstrassem a qualidade de sua memória, como a duração dos vôos e o nome de bares e hotéis. Incrivelmente, o velho não estava me deixando entediado. A alegria com que ele contava a história, a nostalgia em seu olhar ao falar das mulheres brasileiras, da música, conferia certa emoção à sua narrativa. A essa altura, ele já estava sentado em minha mesa. Divertia-se com minhas piadas, perguntava cada detalhe de minha viagem e me alertou: “Cuidado com as mulheres de Rosário: elas só querem seu dinheiro”. Disse a ele que, por mim, tudo bem. O que elas poderiam querer? Meu amor? O açougue abriu e o velho se despediu. Disse que compraria língua de boi.
As rosarinas não se interessaram pelo meu amor e nem pelo dinheiro. Passei a noite bebendo cerveja em um bar em frente ao hotel sem que depravadas interesseiras me importunassem. Recolhi-me à minha insignificante solidão e voltei ao hotel. Precisava descansar para os 800 km do dia seguinte. Refiz as contas. Sim, certamente seriam 800 km.