A chuva enfim não me incomodou. O caminho até Mendoza foi tranqüilo, só sendo algumas vezes interrompido pelos semáforos colocados na estrada quando esta passa por uma cidade. Por menor que a cidade seja, por mais que nenhum carro se aproveite do sinal fechado, os veículos ficam parados por quase dois minutos e, por mais incrível que isso pareça para um carioca, ninguém avança o sinal. Imaginei que ao me aproximar de Mendoza veria a Cordilheira dos Andes surgir no horizonte, mas, para minha decepção, ela não apareceu.
Cheguei a Mendoza já à noite. A cidade era pequena e os albergues estavam todos localizados ao redor de uma praça. Estacionei o carro e iniciei minha procura por um colchão. Os cinco primeiros disseram estar lotados, mas acredito que o fato de um brasileiro surgir no meio da noite sem uma mochila nas costas pode ter gerado alguma desconfiança. Em minha sexta tentativa, o dono também disse estar lotado. Perguntei onde havia outro albergue. Ele perguntou de onde eu era. Quando disse que era do Brasil, me deixou entrar. Levou-me ao quarto, que estava com várias camas vazias. Não entendi nada daquilo. Um inglês chegou e conversamos um pouco. Saí
para comer.
No dia seguinte caminhei pela cidade por todo o dia. Andei até um parque municipal, e só percebi o quão longe ele ficava quando voltei. Um temporal desabou, e eu aguardei que passasse tomando um café. Voltei para o albergue. Na cama em frente a minha havia chegado um francesa, Dorothee, ou algo assim. Conversamos um pouco e saímos para beber. O vinho em Mendoza é extremamente barato, e sua qualidade excelente para leigos como eu. Bebemos duas garrafas em um bar enquanto conversávamos. Apesar da boa conversa, Dorothee não era nada sexy, parecia até um pouco maluca. Vive em Paris e faz roupas para filmes e peças de teatro. Contou sobre os países que conheceu, entre eles a Mongólia, e ficou um pouco irritada quando demonstrei satisfação com a vitória de Sarkozy. Segundo ela, a França é um país muito rico, por isso é capaz de suportar a carga horária de trinta e cinco horas semanais de trabalho e todos os outros privilégio que um Estado de bem-estar social proporciona. Ela tinha um senso de localização incrível. Não fosse por isso, talvez estivesse até hoje procurando o albergue pelas ruas de Mendoza. Combinamos de visitar as
vinícolas no dia seguinte.
Apesar de ninguém saber informar sobre a localização exata das vinícolas, conseguimos encontrar a La Rural, a mais indicada para se conhecer, pois, além da fábrica de vinhos, conta também com um museu do vinho. O passeio, claro, termina com uma degustação, o que nos fez demorar um pouco para sair de lá. Depois demos uma volta de carro pelas plantações de uva e azeitona. Ela disse que o local lembrava a França. Parei para comer uma azeitona do pé, o que foi uma idéia infeliz, pois minha boca ficou seca nas duas horas seguintes. A Dorothee, como agradecimento pelo passeio, pagou meu almoço. Voltamos para o albergue. Apenas como esclarecimento, saliento que em nenhum momento ela tomou banho. Quando chegamos ao albergue, ela disse que ia à piscina, mas, para piorar, ela não mergulhou, apenas tomou sol.
Caminhando pela cidade, vi uma multidão de torcedores do River Plate aguardando a chegada do time em frente a um hotel, pois no dia seguinte haveria um Boca x River na cidade. Após um bom tempo de gritos de guerra e músicas, o ônibus enfim surgiu. A euforia foi geral, com marmanjos se espremendo por todos
os cantos em busca da mágica visão de um jogador do River. Os hóspedes do hotel olhavam horrorizados, enquanto alguns torcedores pulavam o muro, ignorando os seguranças. O fanatismo demonstrado por aqueles torcedores é muito superior a qualquer manifestação de torcidas que eu já tenha visto no Brasil. Horas depois, já à noite, quando saí para comer com a Dorothee, alguns torcedores ainda faziam vigília em frente ao hotel. Comemos comida mexicana e bebemos cerveja. Ela voltou mais cedo para o albergue, e eu caminhei um pouco mais pela noite de Mendoza.
Dorothee me acompanharia até o Aconcágua, perto da fronteira com o Chile, onde nos separaríamos. Ela voltaria a Mendoza e eu seguiria para Santiago. Após alguns quilômetros percorridos, finalmente avistei os Andes. A estrada ficou sinuosa, serpenteando montanhas cada vez maiores. Paramos na Ponte do Inca, um monumento natural que se assemelha a uma ponte e, segundo a mitologia inca, teria se formado para a passagem de algum inca. Não há nada demais, é apenas uma formação rochosa curiosa, mas muita gente vai até lá. Alguns quilômetros adiante fica o parque que abriga o Aconcágua, a montanha mais alta do mundo fora do Himalaia. A altitude no
local alcança três mil metros, e caminhar para chegar perto da montanha é inútil, pois, apesar de parecer perto, ela é enorme, dando a impressão de estar perto mesmo que quilômetros nos separassem dela. Caminhamos até um mirante e nos satisfizemos com a vista. Retornei até a Ponte do Inca, onde a Dorothee pegaria um ônibus de volta. Despedimo-nos rapidamente. Como foi minha primeira despedida durante a viagem, fiquei um pouco abalado, pois não é fácil saber que você talvez nunca mais veja uma pessoa que durante alguns dias foi sua companhia. Depois de outras despedidas, você se acostuma. Mas a primeira é sempre um pouco triste.
Segui pela curvas da estrada. Acidentes se acumulavam ao longo do caminho. Várias cegonhas brasileiras levavam carros ao Chile. Quando me viam, buzinavam e piscavam o farol. Um fila enorme de carros anunciava a chegada da fronteira.
Mais torcedoresApesar do esforço dos torcedores, os jogadores entraram correndo