08/08/2009 - Dia 1 - Nada mais escreverei sobre a Irlanda. Digo apenas que me cansei de lá e resolvi partir. Tenho um grande plano em minha mente, mas meus planos até agora se mostraram extremamente falhos, por isso é melhor que ele apenas aconteça. Parto agora rumo à Irlanda do Norte. Viajando, apenas, como eu gosto. De lá, devo seguir para a Escócia. Arrumando a mochila, a ansiedade que sempre antecedeu minhas viagens retornou. Em meu último dia na Irlanda, apenas ajeitei os últimos detalhes antes da viagem. Fui até o centro de Swords cortar o cabelo. Caminhei até lá com o Douglas, que estava indo trabalhar. “Sabe o que você deveria fazer?”, ele disse, de repente. “Acho que você não teria paciência, mas você deveria escrever um blog sobre essa sua viagem”. “Ahn...”, respondi, “E por que você acha que eu não teria paciência?”. “Você não tem cara de quem fica sentado escrevendo”, respondeu, olhando para mim, como se quisesse constatar que eu realmente não correspondo ao que ele imagina ser alguém que escreve um blog. “É, eu não teria paciência”.
Quando comecei a sair da Irlanda, senti-me um pouco culpado por não ter apreciado mais minha
visita ao país. Os irlandeses até pareciam mais simpáticos depois que entrei no ônibus que me levaria até Derry, na Irlanda do Norte. A viagem durou quatro horas. Quatro horas sem que a janela oferecesse qualquer paisagem interessante, apenas pastos desnivelados, ovelhas e vacas. Como não havia qualquer posto de fronteira entre os dois países, só percebi que já estava na Irlanda do Norte quando vi um mercado com preços em libras. A despeito das casas, que são iguais nos dois países, algumas mudanças podem ser percebidas após alguns quilômetros dentro do Reino Unido. Os campos do bizarro futebol gaélico dão lugar a campos de futebol normal e críquete. Pouco antes de chegar ao meu destino, uma cena improvável de ocorrer na Irlanda atrapalhava o trânsito: uma blitz. A razão da operação policial surgiria alguns quilômetros adiante, quando, logo na entrada de Derry, uma parada com cornetas e tambores tomava conta da rua principal. Parecia uma simpática comemoração, mas em Derry nenhuma manifestação popular é inocente. Tão logo cheguei ao albergue em que me hospedaria, perguntei à dona do local sobre o que era a tal parada. Eram os protestantes em sua comemoração anual da vitória sobre os católicos. Mais
tarde eu iria até lá.
Antes, caminhei pelas ruas de Derry. As mesmas ruas que, há trinta e sete anos, foram palco do famoso Bloody Sunday. Famoso, obviamente, pela música do U2. Por toda a cidade se espalham pinturas nas paredes dos prédios que remetem à opressão do governo britânico sobre os irlandeses que culminou com a morte de treze manifestantes no tal domingo sangrento. Para os irlandeses, apenas treze jovens pacíficos que não faziam mal a ninguém. Para os ingleses, treze terroristas. Os painéis, por sua vez, não ajudam muito a quem queira acreditar na versão irlandesa. O IRA se identifica com qualquer causa terrorista e se orgulha disso. Hamas e Che Guevara são exaltados em painéis que clamam pela morte de Israel. Mas, ao que parece, naquele dia de fato houve um massacre de inocentes, apesar de até hoje o processo judicial que apura aquele acontecimento ainda não tenha chegado a uma conclusão. Fui a um museu que tratava do assunto e vi os murais. A cidade de Derry, uma das poucas na Irlanda do Norte a contar com uma maioria de católicos, possui ainda um muro de mais de quatrocentos anos construído pelos protestantes para separá-los
dos católicos. Após estar dentro da área cercada pelo muro, me deparei com centenas de policiais que estavam ali para evitar qualquer manifestação de católicos indignados com a passeata, que parece não ter qualquer outra razão de existir senão afrontar os republicanos, ou seja, os católicos que querem que Derry pertença à Irlanda, enquanto os unionistas são os protestantes favoráveis à coroa britânica. Como acontece em qualquer situação em que irlandeses vão juntos às ruas, todos estavam bêbados. Um grupo com cerca de vinte bêbados passou por mim e um deles falou qualquer coisa racista para que eu escutasse. Cruzei a ponte que separa a área católica da protestante para assistir ao desfile. Os olhares que me eram direcionados falavam por si só: “O que esse cara está fazendo aqui?”. Como o clima não parecia muito amistoso e não encontrei por ali qualquer turista tirando fotos, achei melhor voltar. Evitei alguns bêbados que já começavam a depredar a cidade e consegui chegar ao albergue. Durante noite, segundo me contou um austríaco que estava em meu quarto, os católicos foram às ruas atirar coquetéis molotov e atear fogo em bandeiras inglesas.
Sem ter comido nada durante todo o dia, aguardei
ansioso por um churrasco que seria feito no albergue. Durante o churrasco, conversei com um professor inglês de cerca de sessenta anos que tirou todas as minhas dúvidas sobre as complicadas relações religiosas da Irlanda. Não há como dizer que se trata de religião causando mortes como muitos gostam de propagar. É apenas um conflito político que viria à tona de qualquer forma e encontra na religião a diferença marcante entre a luta pela independência e o Império Britânico. E Derry, ou Londonderry, como querem os protestantes, foi apenas um dos palcos principais desse conflito.
1 Comment -
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Agora sim o sumiço está explicado. Bons relatos, eslcareceu algumas de minhas dúvidas sobre a situação entre católicos e protestantes. O bicho ainda pega por aí ... rs
Apareça pra trocarmos uma ideía quando posspivel.
Abraços
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