Dias 2 a 4 - Sem ter conseguido dormir tranquilamente, pois cinco irlandesas bêbadas chegaram de um bar às cinco da manhã sem qualquer preocupação em não acordar ninguém, despertei às oito horas para pegar o trem que me levaria a Belfast. Antes, porém, eu pararia para ver o Giant’s Causeway, uma formação vulcânica que constitui o único patrimônio mundial da humanidade da Irlanda. Saltei em uma estação para pegar o ônibus que me levaria até lá. Na estação conheci um casal de canadenses que me acompanharia pelo resto do dia, pois também iriam a Belfast. Cheguei ao local e caminhei um pouco até o Causeway. Nada muito impressionante havia por lá, tão somente rochas formando algo um pouco mais inusitado. Uma horda de turistas se espalhava pelas pedras. Passamos algum tempo vendo as pedras até que pudéssemos pegar o ônibus que nos levaria de volta à estação. Exausto e faminto, peguei o trem até Belfast. No conforto de um trem europeu, minha vontade era mais de dormir ali do que chegar. Mas cheguei, enfim. Com ajuda da canadense, que já conhecia Belfast, encontrei meu albergue. Despedi-me dos dois e segui meu caminho. Como era domingo à noite, a cidade estava
deserta. O albergue ficava em uma decadente rua industrial. Pelo preço que eu pagaria pela cama (seis libras) não era de se espantar que em uma das vinte camas do quarto houvesse um mendigo bêbado dormindo. Não apenas dormindo, mas impedindo todos de dormirem com seu ronco infernal. Como provavelmente deve ser em qualquer albergue de cidades grandes européias, mochileiros dividem o quarto com mendigos e imigrantes que estão chegando, fazendo com que a interação entre os hóspedes não seja das melhores.
Belfast se mostrou um lugar interessante, mas não imperdível. A arquitetura já ostenta alguma opulência vitoriana, mas, com exceção de um ou outro prédio, não há um conjunto agradável de ver. O que torna Belfast um lugar a ser visitado, por mais mórbido e paradoxal que possa ser, são as marcas que o terrorismo do IRA deixou por lá. Fica ainda mais difícil pensar em ver outra coisa quando os dois principais museus da cidade estão fechados.
Os pontos turísticos de Belfast que mais atraem visitantes são aqueles que guardam alguma relação com a guerra religiosa. O hotel Europa, por exemplo, poderia ser um simples hotel, mas é digno de atenção por ser o hotel mais
bombardeado do continente, tendo sofrido cerca de quarenta atentados em sua história. Na periferia da cidade, a divisão religiosa persiste. Falls Road é o bairro católico onde o IRA e a Irlanda são exaltados, enquanto em Shankill Road os protestantes reafirmam suas raízes britânicas expondo por todos os lados bandeiras do Reino Unido. Um monumento marca o local onde um atentado matou cinco pessoas em um bar, incluindo uma adolescente. Do lado católico, um monumento eterniza o nome dos terroristas que mataram essas pessoas. Por maior que tenham sido os erros cometidos pelo Império Britânico, nada se compara à baixeza de um ato terrorista, ainda pior quando perpetrado contra civis. Por mais que o Bloody Sunday tenha sido um ataque brutal, ao menos os manifestantes haviam sido avisados que a passeata fora proibida e sabiam que militares armados e nervosos estariam por lá. Se, ainda assim, foram até lá para atirar pedras nos ingleses, por mais que a resposta tenha sido condenável por sua desproporcionalidade, havia a opção dos que morreram não terem ido até lá. Tivessem ficado em casa, ou bebendo em um bar, estariam vivos. Já a vítima do terrorismo não tem escolha alguma. É vítima de um
lunático que sustenta uma causa que ou não tem o respaldo da maioria da população ou é absolutamente inviável. Pode ser morta mesmo bebendo em um bar.
Cada dia voltava exausto para o albergue, pois meu corpo aos poucos se acostuma com o desgaste de uma viagem. Na terceira noite conversei com um argentino e com um velho alemão, um físico que está morando em um dos dormitórios. Como eu precisava reservar alguns albergues e definir outras coisas de viagem, tentei não dar muito papo para o argentino, mas foi impossível me livrar dele, algo que logo eu lamentaria. Mais dois mendigos chegaram para dormir em meu quarto.
Chegara enfim o dia em que eu deixaria a ilha da Irlanda. Arrumei minhas tralhas e fui até a portaria do albergue para que o recepcionista me indicasse o caminho até o terminal do ferry boat que eu pegaria para ir à Escócia. Eu já havia anteriormente feito duas ou três perguntas sobre o tal barco, e ele sempre respondia monossilabicamente. Perguntei quanto tempo eu gastaria para andar até lá. “Uns vinte e cinco minutos. Mas você deveria chegar lá ao menos uma hora antes da partida”. Ele jamais havia
me transmitido essa informação. Tive que gastar com um táxi, o que acabou sendo bom, pois eu não gastaria menos do que quarenta minutos para percorrer todo o caminho. Para terminar um relato sobre a Irlanda, uma frase esperançosa sobre um futuro pacífico há de ser escrita. Um desfecho que mostre que o pior já passou, apesar de algumas feridas ainda estarem abertas. Um final feliz. Esse desfecho previsível me foi dado pelo motorista do táxi que me levou até o terminal. O papo, claro, foi sobre futebol. Após enumerar todos os jogadores brasileiros que conhecia, incluindo Rivelino, Falcão e Zico, ele me disse ser torcedor do Celtic, o time escocês que representa os católicos. Perguntei como estava a Irlanda do Norte nas eliminatórias, e ele disse não saber ao certo, pois na verdade torce pela República da Irlanda. “Mas e se, por um milagre, a Irlanda do Norte ganhasse a Copa do Mundo, você ficaria orgulhoso?”, perguntei. “Sim, claro! Afinal, somos todos irlandeses.”
Belfast - Falls RdETA e Guevara: mate algumas centenas de pessoas e ganhe um muro em sua homenagem
Falls RdHomenagem aos terroristas do IRA