Dias 10 e 11 - O nome York costuma ser mais associado à cidade colonizada do que à colonizadora. Houvessem os holandeses resistido, a Big Apple hoje poderia ser chamar Nova Amsterdã. Por duas vezes capital do Império Britânico, a cidade de York é atualmente um não muito badalado destino turístico. Mais do que por sua história, muitos vão até lá para apreciar a maior catedral gótica da Europa. Afinal, tentar compreender a história do Reino Unido não é tarefa das mais fáceis. Celtas, romanos, vikings, anglos, saxões, normandos, dezenas de reis, algumas dinastias, um punhados de guerras civis, golpe parlamentar, reforma da Igreja, guerras mundiais. Talvez nenhum outro país tenha interferido tanto na história moderna quanto a Inglaterra. Seu gigantesco Império pode não ter sido o maior, mas sua influência se estendeu por países tão distintos quanto Austrália e Índia, Canadá e África do Sul, Estados Unidos e Sudão. E uma importante parte desta história teve como cenário as ruas medievais de York, em especial o cerco dos parlamentaristas que derrubaram a monarquia que derrubaram a monarquia e a coroação de Constantino como Imperador de Roma. O muro que protegia a cidade dos invasores escoceses acabou tendo mais utilidade
do que se esperava.
Como minha ida para a Inglaterra acabou ocorrendo antes do esperado, não havia reservado nada para York. Por ter sempre esperança de encontrar albergues com preços menores, tenho que caminhar um bocado com minha bagagem. Seguindo um endereço dado pelo Lonely Planet, cheguei a um prédio que em nada se assemelhava a um albergue. Resolvi procurar outro endereço próximo. Encontrei um prédio à venda. Um motoqueiro se aproximou e disse que o albergue estava fechado há dois anos. Ele me indicou o mesmo endereço onde eu achei que não havia um albergue. Voltei e constatei que no endereço anterior havia, de fato, um albergue. O preço, entretanto, estava bem acima do que pretendia pagar. Pedi para deixar minha mochila por lá e fui à procura de algo mais barato. Caminhando pelas ruas com o Lonely Planet na mão, um velho me abordou. “Ah, você tem todas as informações aí, não é?”, ele disse, apontando para o guia. Contei sobre minha viagem e ele ficou entusiasmado, especialmente quando falei sobre a Transiberiana. “Vladiostok!”, se empolgou o velho, “é meu sonho ir até lá”. Ele me aconselhou outro albergue e, depois de falar mais um pouco, se
despediu dizendo que me encontraria na China. Ou então eu disse isso. O local indicado por ele, no entanto, era ainda mais caro do que o primeiro. Voltei para o primeiro endereço e me estabeleci por lá. Descansei um pouco e fui visitar a cidade à tarde.
Por algum motivo ainda estranho para mim, turistas japoneses são encontrados em excesso apenas em alguns lugares, e York é um desses. Pelas ruas estreitas da parte histórica da cidade, uma multidão nipônica dispara seus flashes para todos os lados. Depois de visitar o que há para ser visitado por lá, a melhor coisa a se fazer em York é comprar um sanduíche, sentar em um banco e assistir apresentações dos artistas de rua locais, os melhores que vi até então. Artistas que realmente merecem ganhar seus trocados, pois trabalham duro para apresentar algo de boa qualidade, e não apenas malabarismo com dois ou três limões. Como disse um dos artistas de rua, um mágico: “Não pensem que vocês estão dando dinheiro para um vagabundo que não quer trabalhar. Eu treino mais de oito horas por dia há vinte anos.” E quanto tempo é necessário para aprender a jogar limões para o
alto? Quem ainda agüenta ver o mesmo truque que vem sendo feito há anos? Mas em qualquer lugar da Europa, em especial, até agora, em York, você assiste por prazer, não por pena, e você dá o dinheiro por merecimento, não por caridade. Não que eu dê dinheiro para todos... Mas, algumas raras vezes, me sinto compelido a fazê-lo.
Dois dias em York foram o suficiente para começar a ser introduzido à história e à cultura britânicas. Na manhã do terceiro dia, peguei o ônibus rumo a Liverpool. Por mais que a viagem esteja apenas no início, não posso passar todo o tempo que gostaria em cada local. Afinal, tenho um longo caminho a percorrer até Vladivostok.
YorkCatedral de York
YorkInterior da Catedral