Dias 12 e 13 - Liverpool realizou duas tarefas que o Rio de Janeiro ainda sonha em realizar. Enquanto o Rio tenta mostrar ao mundo que não é apenas carnaval, Liverpool já consegue mostrar que não é tão somente a cidade onde os Beatles surgiram. E fez isso justamente através daquela que é a eterna promessa dos prefeitos cariocas: a revitalização da zona portuária. Mas Liverpool não quer que os Beatles sejam esquecidos, e sim que os visitantes saibam que existe algo além dos Fab Four. E a tarefa foi realizada com sucesso em menos de dez anos, após a cidade amargar anos de ostracismo e decadência econômica. Como ocorre em algumas cidades portuárias, a rota a qual o porto está ligado perde sua importância e a cidade não tem mais razão de existir. Com o surgimento dos Beatles, Liverpool voltou a estar em evidência. Ao ser contemplada com o título de capital cultural da Europa em 2008, um título honorário atribuído pela União Europeia anualmente, o antigo porto voltou a ter importância, mas não devido aos navios, e sim por abrigar museus e restaurantes capazes de atrair turistas. Ainda melhor, museus gratuitos.
Antes de chegar em Liverpool, o ônibus
passou por Manchester e Leeds, duas cidades industriais nada atraentes. Em Leeds, esperei meia hora pelo ônibus que me levaria ao meu destino final. Saí da estação para fumar um cigarro. Um sujeito com sotaque jamaicano me pediu um. Ele estava um tanto agitado, como se esperasse alguém. Perguntou o que eu estava fazendo em Leeds. Disse a ele que apenas esperava o ônibus para Liverpool. Ele disse que Liverpool era uma cidade melhor que Leeds, ao que perguntei por que ele não se mudava para lá. “Boa pergunta!”, ele respondeu saindo de perto de mim. Voltei à estação e fui para a fila do ônibus. Quando percebi, o jamaicano também estava na fila. Logo pensei que ele fosse tentar aplicar algum golpe. Não imaginei que ele fosse entrar no ônibus e ir até Liverpool. Esperei então que o golpe fosse ser dado por lá. Mas ele simplesmente desceu do ônibus, sem qualquer bagagem, e sumiu. Não teria sido nada anormal se, quando disse a ele que estava indo para Liverpool, ele dissesse que também estava indo para lá. Por isso esperei que, ao chegarmos em Liverpool, ele fosse me abordar e dizer: “Como você sugeriu, estou aqui. O que
faço agora?” Mas, pelo jeito, não fui responsável por uma repentina mudança na vida do jamaicano.
Aguardei por duas horas que Gordon, meu anfitrião na cidade, saísse do trabalho. Encontrei-o em um shopping onde tomamos algumas cervejas. Junto dele estava um alemão esquisito que também estava hospedado em sua casa. O alemão era fã dos Beatles. Tentando parecer interessado em relação à banda, perguntei se Abbey Road, onde foi tirada a famosa foto da travessia da rua, ficava por perto. “Não, pois fica em Londres.” Achei melhor não falar mais sobre os Beatles.
Fomos para o apartamento de Gordon, que ficava em um bonito prédio onde as portas e o elevador falavam. Preparei o jantar e fomos conhecer os pubs locais. Por ser quarta-feira, as ruas estavam vazias. Alguns torcedores do Liverpool voltavam do estádio, mas não pareciam muito animados. Gordon sugeriu um drink de uísque com leite, uma bebida um tanto tradicional. Tive que beber de novo para mostrar o meu apreço pelo drink. Fomos a mais dois pubs. Preferi beber cerveja.
Gordon era um patriota. Na Inglaterra todos são. Raramente alguém se definirá como inglês, e não como cidadão do Reino Unido, algo que nenhum
escocês ou norte-irlandês dirá. Gordon encarnava o estereótipo do inglês clássico, e não do hooligan. Falava de forma pomposa, com um linguajar livre de qualquer palavrão. Ele demonstrava certa insatisfação com o declínio do Império Britânico. Não foram poucas as vezes em que mencionou o antigo império. Mas, por encarnar o inglês clássico, ele se mostrava desolado com os outros ingleses, aqueles que encarnam o estereótipo do bêbado nervoso. Não entendia como aquele povo poderia ter formado tão grandioso império. Se é difícil para ele compreender algo que é parte do passado, ainda mais complicado pode ser entender o presente. Entender como um povo violento por natureza, como é o povo britânico, consegue ser mantido em ordem. A resposta, no entanto, começa a vir à tona quando você percebe que, no prédio de Gordon, dezenas de câmeras de segurança estão instaladas. O trabalho da polícia inglesa, por conseguinte, é reduzido pela metade. Não há repressão, somente investigação. O recado é claro: você pode fazer qualquer coisa, mas não terá como escapar da lei. O declínio do império poderia ser ainda maior não fosse por todo esse aparato. A aparência civilizada da Inglaterra não vem de um sentimento intrínseco de consciência
comunitária, mas sim graças a um Big Brother permanente em que uma pequena parte da privacidade é relativizada em prol da segurança. Voltamos para o apartamento. O alemão esquisito queria fumar maconha. Eu queria dormir.
No dia seguinte, Gordon nos acordou às sete da manhã, pois iria para o trabalho e, como normalmente acontece no couchsurfing, você é sutilmente convidado a se retirar da casa. O alemão iria embora à tarde e, por isso, ele propôs que fossemos juntos aos lugares. Sem muita opção, concordei. Algumas horas foram suficientes para me fazer entender por que prefiro viajar sozinho. Ter que se preocupar se a outra pessoa quer ir a outro lugar, se ela já terminou de ver um museu ou uma igreja enquanto você ainda quer ficar mais um pouco, é um saco. Para alegria do alemão, fomos ao The Cavern, o bar onde os Beatles realizaram suas primeiras apresentações. Mesmo para mim, que não sou um fã ardoroso do quarteto, a sensação de estar ali, um pequeno palco de onde saiu a maior banda de todos os tempos, é algo emocionante. Bebemos uma cerveja por lá apenas para que possamos dizer que já bebemos uma cerveja no The
Cavern. Um pouco depois, me despedi do alemão esquisito. Visitei os museus do porto. Por ser época de férias escolares, muitos museus estão repletos de crianças, o que causa certe irritação. Entretanto, é admirável o trabalho realizado para atrair crianças aos museus. Geralmente jogos em que a criança deve buscar as respostas nos objetos exibidos são oferecidos. Uma mãe brigava com um menino de quatro ou cinco anos por ele não conseguir ler com perfeição uma pergunta do jogo. Quatro ou cinco!
Encontrei Gordon ao fim da tarde e fomos para o apartamento. Vimos um filme horroroso e fui dormir. Novamente, rua às oito da manhã. Ainda não estava seguro em relação à minha hospedagem em Londres. Planejava ficar até sábado em Liverpool, mas Gordon iria à noite para Londres também. Além disso, havia pensado em ir a Birmingham antes de Londres, o que não estava mais em meus planos. Por isso, a pessoa que me hospedaria em Londres esperava que eu chegasse no meio da semana seguinte. Liguei para ela e a informei que estaria lá no mesmo dia. Felizmente, não houve qualquer objeção. Mais tranquilo, aproveitei a manhã chuvosa de Liverpool. Era hora, no entanto, de seguir
para um dos pontos altos de minha viagem: Londres.
The CavernNão era para o alemão ter participado da foto