Dias 14 a 21 - No filme de Shane Meadows homônimo ao título deste post, a Inglaterra é mostrada como um país perdido em meio ao crescimento da extrema direita representada pelo BNP, o partido nacionalista britânico. Faz parte do trabalho do cineasta buscar histórias que representem algo que faz parte de uma da sociedade. Mas também é inerente ao espectador generalizar aquela visão e imaginar que tal história represente muito mais do que uma pequena parcela. Essa visão começou a ser desconstruída em York, perdeu ainda mais sentido em Liverpool e, por fim, foi devidamente exterminada em Londres. Ser britânico, em Londres, é ser apenas parte de uma das milhares de etnias que dividem espaço naquela metrópole gigantesca. Não há mais como definir o que é ser inglês quando você se depara com aquela explosão de cores, línguas e trajes que formam uma cidade que poderia ser internacional, mas é, mais do que qualquer outra, inglesa, pois ali a verdadeira Inglaterra surge.
Se Gordon, o sujeito de Liverpool, olhasse com mais atenção, ele veria que Londres ainda representa o Império Britânico. Afinal, a imensa maioria dos imigrantes vem de países da Commonwealth, a comunidade dos países que pertenciam ao império
e que hoje gozam de alguns privilégios diplomáticos. É difícil acreditar que no meio daquela confusão de etnias haja espaço ou tempo para confrontos raciais. Comparada com os países em que estive até agora, a Inglaterra é um oásis de tolerância. Porém, regularmente alguma notícia sobre confrontos entre grupos de extrema direita e imigrantes pode ser encontrada nos jornais. Mas aqui os imigrantes não são mais uma inofensiva minoria. Quando agredidos, eles respondem com mais violência. Apesar disso, um delicado equilíbrio se mantém em Londres através da constante vigilância das câmeras e de regras rígidas.
Nunca havia imaginado que dentro de um mesmo país europeu uma viagem de ônibus pudesse durar sete horas. Teria que ter durado seis, mas um engarrafamento acrescentou uma hora à viagem. Ao me aproximar de Londres, aguardei ansioso o momento em que o Big Ben surgiria por detrás dos prédios. Isso não aconteceu, no entanto. A janela do ônibus exibia apenas o subúrbio pobre e assustador da metrópole. Eu ainda não sabia que em pouco tempo eu estaria hospedado em uma daquelas casas. Não muito pouco tempo, pois Anika, minha anfitriã londrina, não atendeu minhas duas primeiras ligações. Para piorar, meus créditos do telefone acabaram
e os novos que comprei na rodoviária demoraram cerca de uma hora para serem ativados. Quando consegui ligar novamente, ela atendeu e me deu as instruções para chegar à sua casa.
Deparei-me pela primeira vez com o gigantesco metrô londrino. Parece ser impossível encontrar um caminho pelo meio daquele emaranhado de linhas. Depois de analisar o mapa das linhas longamente, encontrei o caminho que me levaria a Willesden Junction. Mais tarde fui informado que a área em que me hospedei seria a capital européia do crime. Entretanto, como se fosse motivo para orgulho, muitos locais se intitulam a capital do crime na Europa.
Anika era estoniana, o que me deixou um tanto decepcionado, pois não gosto de me hospedar com alguém que não tenha nascido no local, já que os nativos conhecem melhor a cidade e sua história, além de terem mais orgulho e vontade de mostrá-la. Entretanto, na caríssima Londres, qualquer hospedagem gratuita é bem-vinda. Mesmo que seja numa rua repleta de restaurantes brasileiros e gangues de traficantes jamaicanos.
Passei minha primeira noite debruçado sobre um mapa da América do Sul discutindo a viagem que Anika e sua amiga da Letônia farão no fim do ano. Serviram-me picles e
omelete. Minha cama seria o chão do quarto de Anika.
Em pleno verão, em um belo dia de sol, você pode se apaixonar por Londres perdidamente. Ao ver a Trafalgar Square pela primeira vez, com toda aquela gente aproveitando o sol, assistindo artistas de rua ou protestos, você deseja poder fazer parte daquilo. Meus poucos meses de Europa, no entanto, me ensinaram a não me deslumbrar com dias ensolarados, pois estes são apenas exceções. Durante dez meses do ano, a Trafalgar é apenas uma praça molhada e fria. Mas naquele dia parecia o melhor lugar do mundo. Atravessei a praça e segui até o Tamisa, de onde finalmente consegui avistar o Big Ben, o Parlamento e London Eye. No fim da tarde, Gordon, que estava em Londres, me mandou uma mensagem chamando para um pub. Lá estavam sua namorada coreana e um amigo. Bebi algumas cervejas e voltei para casa. Mal cheguei e fui levado por Anika e sua amiga para uma boate no Soho onde tocava salsa. Como sempre, tentaram me ensinar a dançar, mas em dois minutos perceberam minha completa incapacidade de coordenar meu corpo com o ritmo de uma música. Sorte minha, pois o hábito de tomar
banho regularmente parece não ter chegado ao Leste Europeu. Na volta para a casa, alguns bêbados dançavam na rua ao som de outro bêbado que tocava saxofone.
Durante a noite, o namorado iraniano de Anika chegou do trabalho. Acordei com o barulho de alguma movimentação na cama. Tive que permanecer imóvel para não perceberem que eu estava acordado. Logo o namorado passou a falar de mim. Anika já havia me avisado que ele não ficara muito satisfeito por sua namorada ter um brasileiro em seu quarto. Ele perguntou a ela quantos dias eu ficaria por ali e depois disse que eu estava fedendo, ao que Anika me defendeu dizendo que eu não fedia. Eu também acho que eu não estava fedendo, mas fiquei ainda mais indignado por ter sido a frase dita por alguém que tem uma namorada fedorenta. Consegui dormir enquanto eles ainda falavam de mim.
No dia seguinte saí novamente por Londres, fui a alguns museus e voltei à noite para casa. Bati na porta do quarto de Anika e ouvi que o namorado estava lá. Se ele já não estava muito satisfeito comigo, ficou ainda menos. Após uns dez minutos a porta se abriu e de lá
saiu um iraniano com cara de poucos amigos. Ele me cumprimentou e foi assistir televisão. Sem muito que fazer por ali, saí de casa e fui para um cyber café. Quando voltei, ele já havia ido embora. Enquanto comia as panquecas que Anika havia preparado, perguntei a ela se estava tudo bem. Ela explicou os ciúmes do namorado. Para me fazer de coitado, disse que se eu estivesse causando problemas poderia sair. A amiga dela se ofereceu para me hospedar. Amanda morava com um iraquiano que aparentemente não era tão ciumento quanto o iraniano. Ainda melhor, sua casa ficava em Wimbledon, uma vizinhança um tanto mais, digamos, inglesa do que a de Anika.
Mais um dia de caminhada por Londres. E caminhando pela cidade você pode se apaixonar pelo metrô de Londres. Em nenhuma estação se aguarda por mais de três minutos um trem e em qualquer lugar se chega através dele. São tantas as linhas que às vezes é preciso descer até ao inferno para pegar um trem. Em dias de calor, o clima é sufocante. Londres dá a impressão de ser uma cidade louca, mas a cortesia britânica se mostra em pequenos gestos. Nas escadas rolantes, todos se
posicionam à direita para que os apressados possam passar pela esquerda. O mesmo é feito nos longos corredores das estações. Por mais lotado que esteja o trem, o silêncio reinará absoluto enquanto noventa por cento dos passageiros se concentram em alguma leitura. Desta impessoalidade gerada pela cultura, que por sua vez pode ser atribuída a uma maior propensão à leitura provocada pelos dias frios, nasce a frieza necessária para a formação de um país desenvolvido. O pragmatismo não combina com a passionalidade latina. Não que um exclua o outro. Apenas não se pode conseguir o mesmo resultado. E, como fui descobrir alguns dias depois, este resultado tampouco será encontrado em boa parte do futuro europeu.
Mudei-me para a casa de Amanda. Conversei um pouco com o iraquiano antes de dormir. Disse a ele que iria para o norte do Iraque (claro que não vou). Ele confirmou que norte é seguro, mas muito caro. Logo vi que tudo era caro para ele. Paquistão, Arábia Saudita, Irã, qualquer país que eu dissesse ele respondia da mesma forma: “Lá é bom, mas é muito caro”. Pude, enfim, dormir sozinho em um quarto.
Amanda, entretanto, saía para trabalhar às oito da manhã e me
botava para fora junto. Eu apenas caminhava dez minutos e ia dormir no parque de Wimbledon, perto das quadras de tênis. Minhas forças para andar por Londres se esvaiam. Ainda tive tempo de ir ao Gabinete da Segunda Guerra Mundial, onde as decisões eram tomadas. Os gabinetes permaneceram intactos ao fim da guerra. Junto aos gabinetes, há um museu sobre Winston Churchill onde se busca mais desfazer a imagem de medroso atribuída a Chamberlain, o primeiro-ministro que antecedeu Churchill e que achava os nazistas pacíficos, do que exaltar o grande líder inglês. Fui a Camden Town, um bairro boêmio-decadente-alternativo onde lojas e restaurantes se misturam em um antigo estábulo londrino. Em minha segunda noite na casa de Amanda, preparei um jantar brasileiro que consistia em farofa, arroz, molho à campanha e bife. Tive a impressão de não ter agradado muito. Na terceira e última noite, a mãe de Amanda chegou da Letônia. O péssimo inglês dela era suficiente para entender sempre o contrário do que eu falava. Ela trouxe alguns doces típicos da Letônia. Fizeram-me um prato com umas frutinhas vermelhas que disseram ser ótimas. Devia ser, todavia, uma daquelas comidas que você precisa aprender a gostar desde criança. Nem
por educação consegui comer até o fim. Após as frutas, a situação melhorou. Frango defumado e doces me foram servidos. Se eu nunca fui muito de negar comida, com os europeus aprendi a não negar nada. Em minha situação de contenção financeira, como qualquer coisa que me é oferecida.
Pude dormir até mais tarde em minha última noite, pois a mãe de Amanda ficou em casa. Gostaria de ter ficado mais alguns dias em Londres, mas já não havia mais espaço para mim no apartamento, e eu não queria ter que mudar para outro lugar. Decidi ir para Brighton, uma cidade do litoral inglês, onde, segundo eu imaginava, poderia descansar um pouco à beira-mar. O fato de a mãe de Amanda não falar inglês direito causou um constrangedor mal-entendido em minha despedida. Enquanto apertava sua mão, perguntei a ela se na Letônia se davam beijos no rosto para se despedir. Acredito que ela tenha entendido que eu queria beijá-la, pois respondeu assustada: “Beijo?! Não! No kiss! No kiss!”. Nem tentei explicar o que quis dizer, já que era mais fácil virar as costas e nunca mais ver aquela mulher.
Não tão fácil foi virar as costas para Londres, a primeira
cidade de minha viagem em que desejei ficar por muito mais tempo. Acredito, entretanto, que não há como sair de lá com a sensação de se ter conhecido Londres. Com a personalidade que só uma grande metrópole pode ter, ela guarda surpresas por todos os cantos. Cheguei sem muita expectativa e saí com a certeza de que um dia terei que voltar para melhor conhecê-la e compreendê-la. A frase mais conhecida da cidade, o “Mind the gap” que é ouvido intermitentemente nas estações de metrô, pode ser algo que a defina, pois este gentil aviso, por vezes antecedido por um “please”, é ouvido em meio a confusão de uma estação lotada. Ele mostra que mesmo em uma cidade agitada e caótica como Londres, com seus dez milhões de habitantes, sempre há espaço para boa educação e cordialidade.
Quando senti o vento gelado que vem pelo Canal da Mancha em direção a Brighton, percebi que ali não seria uma praia para relaxar. Ainda assim, imaginei que poderia ter duas boas noites de sono antes de atravessar o canal rumo à Bélgica. Quando vi em meu quarto quatro suecas bebendo com quatro ingleses, percebi que ali não seria um lugar
para dormir.
Antes de tentar dormir, desci para fumar um cigarro. Um sujeito que estava no albergue puxou papo. Era da Irlanda do Norte. Perguntou o que eu tinha achado de lá. Disse que era ótimo. “Os irlandeses são demais, não?”, ele perguntou. “Sim, um bando de bêbados ignorantes, são ótimos!” Obviamente, apenas a parte antes de primeira vírgula é verdadeira. O balançar de suas mãos denunciava sua opção sexual. “Você sabia que aqui é a capital gay da Inglaterra?”, ele perguntou, certamente esperando que eu respondesse: “Claro! Por que você acha que estou aqui?”. Mas, de fato, eu jamais havia tomando conhecimento da fama do local. O irlandês disfarçou dizendo que também não sabia disso. Voltei para o quarto e o irlandês logo entrou, pois ele estava no mesmo quarto. Ele disse ter visto dois ladrões tentando entrar no albergue pela janela do banheiro, pois, como o prédio estava sendo pintado, havia andaimes por onde as janelas eram facilmente alcançadas. Não acreditei muito nele, pois, além de gay, ele parecia louco. Logo, porém, os outros funcionários do albergue estavam caçando os invasores. Depois de buscas infrutíferas, desistiram. Um funcionário do albergue disse que isso acontece com alguma frequência. Isolada
na gélida costa inglesa, Brighton apresenta alguma semelhança com a Irlanda e seus bêbados drogados.
Passei duas noites sem mal conseguir fechar os olhos, pois a todo momento alguém entrava bêbado no quarto fazendo todo o barulho possível. Na segunda noite, mal dormi, pois teria que acordar às cinco e meia para pegar um trem às sete. Porém, desde três horas era impossível dormir, já que o quarto estava tomado por bêbados que pouco se importavam com o meu sono. Levantei e fui tomar banho, caminhando com cuidado pelos corredores para não pisar nos sujeitos que foram vencidos pelo álcool antes de chegar à cama. Não, aquela não seria a impressão que levaria da Inglaterra. O Reino Unido ainda é maior do que isso.