Dias 53 a 55 - Quando cheguei a Basel, no norte da Suíça, saí de um trem francês e entrei em um suíço. Ao entrar no vagão, conferi algumas vezes se eu não havia entrado por engano na primeira classe. A Suíça é, de fato, tudo aquilo que se imagina. Organização, limpeza, luxo e respeito pelo próximo. Diga-se de passagem, excesso de respeito pelo próximo. Já acomodado em meu confortável assento, ouvi alguém sussurrando no vagão. Imaginei ser alguém rezando. Quando localizei a pessoa, vi que ela não rezava, mas sim conversava com a pessoa ao seu lado de forma a não incomodar os outros passageiros. O silêncio é o som da Suíça. No chão, nenhuma guimba de cigarro. Mesmo sem nenhum carro a vista, os pedestres aguardam a luz verde.
Um Euro vale um franco suíço e cinquenta. Pensei que, devido a isso, a Suíça não poderia ser tão cara quanto dizem. Troquei algum dinheiro e fui encontrar minha anfitriã. Já tinha visto algumas fotos dela no site do couchsurfing e havia percebido que havia algo de errado com seu rosto. Quando a encontrei, vi que pessoalmente era ainda pior. Eu não posso dizer que ela era a pessoa
mais feia que já vi, pois não sei definir se seu rosto era feio ou defeituoso. Para piorar, alguns dias antes, andando de patins, ela havia esborrachado a cara no chão, deixando seu lábio inchado e seu nariz machucado. Enquanto ela falava, eu tentava entender o que estava errado em seu rosto. Seu nome era Nina e, feia como era, restava-lhe a simpatia.
Estudantes suíços não vivem em cafofos sujos. O apartamento que Nina dividia com seus amigos era limpo e organizado. Nina me ofereceu comida. Um casal que vivia com ela se juntou. Um outro morador estudava Física e encarnava o estereótipo do físico atormentado. Vivia em seu quarto sem falar com ninguém, saindo apenas para fumar meio cigarro a cada meia hora. Quando Nina hospedou um etíope, ele se trancou por dois dias no quarto com medo do negão. Perguntaram o que eu sabia sobre a Suíça. Não muita coisa, admiti: Roger Federer, relógios, chocolates e porte de arma liberado. Eles gostaram dessa parte. Não gostaram quando perguntei, fingindo inocência: “Não foi aqui que um partido fez uma propaganda com as ovelhas brancas dando um chute em uma ovelha negra?” Eles disseram que sim, mas salientaram que “apenas”
vinte por cento das pessoas votam no partido que, segundo eles, não seria de extrema direita, apenas conservador.
No dia seguinte Nina saiu para me mostrar a cidade. Quando se vê a paisagem suíça, é possível entender como o país consegue manter sua neutralidade diplomática. Não há razão para se lutar por um território com mais montanhas do que planícies. Enquanto outros países neutros foram invadidos durante a guerra, ninguém deu muita bola para o país alpino.
A Suíça é sempre usada como argumento em contraposição aos Estados Unidos quando se discute a liberalização do porte de armas. Como forma de defender o país de uma invasão estrangeira, os suíços são incentivados a se armarem até os dentes. Nem por isso eles saem se matando quando são sacaneados na escola. Não é o momento, entretanto, para se tecer maiores comentários a respeitos de tal paradoxo. É apenas um dado curioso.
De Berna pode-se ver os Alpes ao fundo. Um rio incrivelmente limpo corta a cidade. O alemão é a língua predominante na região. Em outras partes da Suíça se fala francês, italiano e romanesco. Era hora de almoçar. Os preços estavam um pouco acima do que eu esperava. Aliás, muito
acima. Fui a um supermercado na esperança de encontrar algo mais acessível. Nada. Um pequeno sanduíche de pão com queijo custava dois euros e cinquenta. Procurei a seção de produtos quase vencidos e consegui comprar um sanduíche um pouco maior por quatro euros. Não é à toa que os outros três moradores do apartamento de Nina são vegetarianos. É muito fácil ser vegetariano quando se vê o preço da carne na Suíça. Percebi que minha visita ao país não poderia durar muito tempo.
No fim da tarde Nina foi conhecer uma garota que havia pedido sua ajuda pelo couchsurfing para fazer seu perfil no site. Parecia apenas uma desculpa de quem não tem amigos. Suíços não gostam de quem reclama dos preços do país. Para provar isso, a amiga pagou uma rodada de cervejas. Para se mostrar agradável, ela prometeu nos levar no dia seguinte para conhecer um lago. À noite, comprei duas morcillas argentinas e Nina preparou uma batata rostie. Eu não sabia que elas eram típicas da Suíça. Nina se espantou quando eu disse que comíamos aquilo no Brasil, assim como também comíamos fondue.
Berna foi onde Albert Einstein desenvolveu o início da Teoria da Relatividade. Não entendo
nada de Física, mas a casa onde ele viveu por alguns anos é uma das atrações locais. Outra atração é um pouco mais estranha. O símbolo de Berna são dois ursos, por isso dois ursos de verdade ficam em um buraco no meio da cidade. Depois de muitas reclamações de sociedades protetoras dos animais, uma nova e mais confortável casa está sendo construída para os ursos. Quando passei por lá, eles estavam escondidos. Fui encontrar Nina e sua nova amiga. Jamais fiquei sabendo o nome da tal amiga. Ela nos levou até Interlaken. Apesar de sua boa vontade, não simpatizei com ela. Muita gente fica incomodada com minha viagem. É um tanto pretensioso dizer que alguém tem inveja de você, mas, naquele dia, senti isso. Ela queria deixar claro que, se quisesse, faria o mesmo, pois dinheiro não lhe faltaria. A todo tempo ela fazia alguma insinuação sobre meu excesso de zelo econômico. Quando ela disse que havia visitado o Japão, perguntei se o país era muito caro. Ela disse que sim, mas que não gosta de viajar se preocupando com dinheiro. Depois falou de um amigo mexicano que iria visitá-la e que, se ele não tivesse o dinheiro para
a viagem, pagaria para ele, pois ela entende que um salário que se ganha no México não vale nada na Suíça. Perdi a vontade de falar com ela. Apenas admirei os lagos e as montanhas.
Foram apenas três dias na Suíça. Detesto ter que conhecer um país desta forma, mas esta foi minha única opção, pois, se eu não passasse por lá, meu trajeto rumo a Itália se complicaria um pouco. Apesar do pouco tempo, pude conhecer um pouco do povo suíço e ver como eles se orgulham de sua riqueza e de sua organização exemplar. Quando estava indo a Interlaken, a amiga de Nina dirigiu alguns poucos quilômetros por hora acima do permitido. Perguntei se não havia radares na estrada. Ela disse que sabia onde os radares estavam e, por isso, poderia andar um pouco acima do limite. “Tudo muito certinho às vezes é chato”, ela disse. Na Suíça, para ser um louco, basta andar dez quilômetros por hora acima do permitido.
BernaDiscrição é a alma do negócio