Dias 56 a 59 - Antes de chegar à Europa, a Itália não era um dos destinos que eu mais aguardava. Talvez por não ser um país exatamente “europeu”, e sim mediterrâneo, o que a confere características mais similares às nossas, não me parecia algo muito interessante. Ao longo da viagem, no entanto, fui conhecendo cada vez mais pessoas que idolatravam “Il Bel Paese” como se lá fosse o paraíso na Terra. A comida, o povo, o sol, a arquitetura, tudo na Itália era considerado melhor, ou, dependendo de quão patriota era a pessoa com quem eu falasse, ao menos igual a algo de seu próprio país. Assim, a Itália se transformou em minha maior expectativa. E, em pouco tempo, essa expectativa seria correspondida.
A forma mais barata de sair da Suíça, onde os trens são absurdamente caros, foi pegar um trem que me deixasse na primeira cidade italiana após a fronteira. Cruzar a fronteira entre Suíça e Itália é um choque. A riqueza abundante dá lugar a algo bem próximo da pobreza, especialmente quando se anda de trem, pois as áreas próximas às linhas de trem são as menos valorizadas das cidades. No fim da tarde cheguei à cidade onde
ficaria hospedado, Soave, a vinte minutos de Verona. Daniele, um nerd de vinte e poucos anos me buscou na estação. Não era exatamente o italiano típico que eu esperava encontrar. Quieto e esquisitão, Daniele era o típico professor de física e estudante de informática. A cidade de Soave era uma minúscula vila com ruas medievais e um castelo no alto de um morro. A casa de Daniele tinha mais de trezentos anos. Como um bom italiano, ainda morava com sua mamma. Fui recebido com um jantar não muito italiano, mas bom o suficiente. Tudo me era oferecido. A boa hospitalidade latina estava fazendo falta.
A primeira coisa que queria fazer na Itália era comer uma pizza. Daniele indicou-me um lugar em Verona. A melhor pizza da cidade saía por cinco euros. Meia garrafa de vinho por dois. As pessoas ganhavam vida novamente. Nas mesas do restaurante, italianos conversavam de forma animada, sem preocupações quanto ao barulho. Mesmo estando já no outono, ainda havia um pouco de calor. Depois de comer a pizza, andei por Verona. A cidade abriga um anfiteatro romano, várias igrejas, alguns castelos e a casa onde teria morado a Julieta do Romeu. Claro, apenas ficção. Nas paredes
da tal casa, milhares de recados apaixonados. Para faturar ainda mais com a história, a prefeitura de Verona agora permite que casamentos sejam realizados ali.
A mãe de Daniele preparou o jantar: pizza. Alguns amigos de Daniele apareceram. Temi que fosse encontrar um grupo de físicos esquisitões, mas seus amigos eram normais. Um estava indo morar no Brasil por um ano por ter caído nas graças de uma mineira. Comemos várias pizzas, conversamos e fui dormir.
Enfim tive um dia para descansar de castelos, igrejas e museus. O tal amigo que iria para o Brasil faria um piquenique de despedida em um parque ao lado do castelo de Soave. Um monte de italianos bebendo vinho sob um sol quase escaldante. Todos trouxeram deliciosas comidas preparadas pela mamma. Jogamos conversa fora até o sol se pôr. Era tudo o que eu precisava naquele momento. Um pouco de sol, boa comida, papo furado e um cenário italiano.
Sendo impossível encontrar hospedagem em Veneza, passei apenas um dia por lá. Acordei cedo e peguei o trem (atrasado, como sempre na Itália) com Daniele, que iria para a faculdade. Dormi profundamente durante a viagem. Quando acordei, não entendi direito o que era aquela cidade
que surgia no meio do mar. Demorei alguns segundos para entender que estava em Veneza. Dentre tantas imagens que guardarei em minha mente após esta viagem, sei que aquela visão foi algo que jamais esquecerei.
Saí da estação e fui buscar alguma comida. Comida barata é algo que não se encontra em Veneza. Comi um calzone vagabundo e um cachorro-quente sentado na escadaria da estação. Enquanto fumava um cigarro após a refeição ouvi uma voz: Diego? Um sujeito se aproximou e eu o reconheci. Era um brasileiro que eu havia conhecido em Dublin. O sujeito tinha ido algumas vezes à minha casa em Swords, mas eu não me lembrava de seu nome. Conversamos um pouco e fomos explorar a cidade. O sujeito viajava quase sem nenhum dinheiro, por isso não entramos em museus ou coisas do gênero. Apenas fiz tal concessão porque irei voltar a Veneza em alguns meses, devidamente acompanhado por minha futura esposa. Certamente, será uma experiência melhor, pois Veneza merece ser vista em boa companhia. Mesmo sendo um dos lugares mais impressionantes e únicos que já vi, não é a mesma coisa ir até lá acompanhado de um sujeito que você nem sabe o nome. O amor
está no ar por lá. Casais apaixonados andam nas gôndolas, bebem vinho nos bares, tiram fotos estúpidas. Pelo menos pude, finalmente, falar português por todo um dia. No fim da tarde, pegamos o Vaporetto e fomos a outra ilha. Passamos a maior parte do tempo procurando um banheiro por lá, um problema minúsculo em outros lugares, mas que, na Europa, torna-se uma grande dor de cabeça. Depois de uma hora de procura, tivemos que fazer da rua nosso banheiro. Encontramos uma praia na ilha e o sujeito sem nome foi mergulhar no mar. Já era quase noite e tínhamos que voltar para Verona (ele também se hospedaria por lá). Comi uma pizza com cobertura de batata frita e calabresa e pegamos o trem.
Havia passado todo o dia tentando lembrar o nome do sujeito. Nomes com “a”, nomes com “b”, nomes com “c”, nada vinha à mente. Quando estávamos no trem, ele procurou algo em sua mochila. A passagem de seu voo ficou à vista: Henrique! Era tarde demais para que seu nome fosse necessário. Após as promessas de praxe (nos vemos no ·Rio, esse tipo de coisa), saltei do trem. Na casa de Daniele, um coelho à italiana me
aguardava. Sem pêlos, estava bem melhor do que o coelho francês. O clima, a comida, as cidades, tudo estava melhor do que antes. O prazer de viajar, que começava a diminuir após tanto tempo na monotonia norte-européia, estava de volta.
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As fotos estão lindas...me matou de inveja rsrs
baciones
Lindo texto, belas fotos, apesar da bagunça italiana, dá vontade de ir agora para la. Beijos.
Diego,
As histórias de suas viagens passaram a fazer parte do meu di-a-dia. Agora, que será sua futura esposa? Esta façanha você não me contou.
Aguardo notícias.
Abraços,
Seu pai
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As fotos estão lindas...me matou de inveja rsrs
baciones
Lindo texto, belas fotos, apesar da bagunça italiana, dá vontade de ir agora para la. Beijos.
Diego,
As histórias de suas viagens passaram a fazer parte do meu di-a-dia. Agora, que será sua futura esposa? Esta façanha você não me contou.
Aguardo notícias.
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Seu pai
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