Dias 64 a 67 - Devido a um erro em minha mensagem pelo couchsurfing, repentinamente fiquei sem lugar para dormir em Florença. Havia mandado meu pedido com a data errada e, quando, no dia anterior, enviei uma mensagem confirmando minha chegada para o dia seguinte, meu anfitrião disse que havia me esperado três dias antes. Expliquei meu erro, mas ele não poderia me hospedar no sábado, apenas a partir de domingo. Ele então me indicou uma amiga sua que poderia me receber. Anna aceitou que eu passasse a noite em seu apartamento. Na tarde seguinte, ela foi me buscar na rodoviária. Saímos de lá diretamente para um prova de canoagem em que as equipes eram formadas por mulheres que tiveram câncer de mama. Anna preenchia este requisito, mas estava com problemas de coluna que impediam sua participação. Quando chegamos, a prova já havia terminado. O time de Anna havia ganhado.
Faminto, pedi para comer algo que Luigi tinha dito ser uma das especialidades florentinas: panino lampredotto, um sanduíche recheado com estômago de boi. Não lembro se já havia comido estômago anteriormente. Comi dois naquele dia e mais um em outro dia. Paramos para tomar um café e conversar um pouco sobre
as mesmas coisas de sempre: Itália, Berlusconi, máfia, etc. Fomos ao apartamento de Anna e aproveitei para dormir um pouco. Quando acordei, saímos para um passeio. Anna me levou a Piazza Michelangelo, na parte alta da cidade, de onde se tem uma vista panorâmica. Depois andamos pelas ruas de Florença. Meio sem jeito, com medo de parecer um ignorante, perguntei a ela o que seria exatamente um exemplo de arquitetura renascentista. Ela não sabia. Ligou para uma amiga para pedir ajuda, mas ela também não estava muito certa. No berço do Renascimento, para minha surpresa, ninguém sabia explicar ao certo o que fora o movimento.
Após o passeio, encontramos Roberto, meu verdadeiro anfitrião, em um restaurante. Ele estava acompanhado pelas duas israelenses que estavam hospedadas em sua casa. Roberto, como um bom italiano, apenas falava, sem dar ouvidos aos outros. Eu tampouco dei ouvido a ele enquanto comia mais uma fantástica refeição italiana. Primeiro prato: pasta com bacalhau; segundo: língua de boi com feijão branco. Roberto me convidou sem muito entusiasmo para um bar, pois na verdade ele queria apenas levar as israelenses. Preferi dormir.
Às oito da manhã do dia seguinte, fui acordado. Anna iria sair para fazer alguma
coisa e eu fui despejado na rua. Não sabia que teria de acordar cedo, por isso dormi tarde. Exausto, procurei uma praça onde pudesse tirar um cochilo. Não consegui dormir. Andei pela cidade. Era domingo, dia de turismo na Europa. Nenhuma cidade tem tantas estátuas peladas nas ruas como Florença. Para onde quer que se olhe, um pênis estará ao alcance de sua vista. Alguém que resolva ficar pelado no meio da rua não deve chamar muita atenção em Florença.
Na noite anterior, Anna havia me ensinado como escolher um bom sorvete. Para tanto, ela se baseava em uma estranha teoria: quanto mais feio fosse o aspecto do sorvete, melhor ele seria. No meio de tantas lojas onde os sorvetes brilhavam coloridos e belos, ela me indicou uma onde uma pasta feiosa repousava em uma vitrine escura. Na tarde seguinte, resolvi conferir se a teoria era verídica. O mito do sorvete feio de Florença, no entanto, é falso. Se for para comer um sorvete normal, coma ao menos um que seja bonito. O sorvete de Verona continua sendo o único realmente excepcional; o resto é apenas mito.
Voltei para a casa de Anna apenas para recolher minha bagagem e me
mudar para a casa de Roberto. Fiquei alojado em um quarto só para mim. Roberto estava assistindo televisão na sala. Fui até lá tentar estabelecer um diálogo. Era impossível. Roberto falava longa e pausadamente. Quando eu pensava ser a minha vez de falar, descobria que ele estava apenas refletindo sobre o que havia dito anteriormente, e logo iria concluir seu pensamento, ignorando completamente o que eu tentava começar a dizer. Isso se repetiu algumas vezes. No fim, eu já estava com medo de falar, pois mesmo que Roberto estivesse calado a mais de um minuto, era só eu abrir a boca para ele retomar seu pensamento. Perdi a vontade de me manifestar. Roberto foi para o computador e passou o resto da noite gargalhando para algo que assistia no Youtube.
Um temporal caiu em Florença no dia seguinte. Eu não poderia imaginar que aquele temporal marcaria definitivamente o fim do verão na Itália. Até então, os dias ainda eram quentes, o que alimentava minha esperança de encontrar uma boa praia no sul do país. A chuva parou no meio da tarde. Aproveitei para correr até a estação e pegar um trem rumo a Pisa. Cheguei à cidade e a atravessei
rapidamente em busca da famosa torre. Ao vê-la pela primeira vez, pensei não ser aquela a verdadeira torre. Imaginei que fosse encontrar algo gigantesco, que desafiasse as leias da física com sua inclinação. Uma torre daquele tamanho não causa muito espanto por ser torta. A praça que abriga a torre, no entanto, é interessante. Ainda mais interessante é observar a maior quantidade de pessoas tirando a mesma foto engraçadinha ao mesmo tempo. Dezenas de turistas têm a original idéia de tirar um foto fingindo estar segurando ou empurrando a torre. Passei algum tempo por ali e voltei para Florença.
Como fiz todas as manhãs em quase todas as casas italianas em que me hospedei, preparei meu café em uma mocca. É difícil explicar o que é uma mocca para quem não faz idéia do que seja, mas vamos dizer que é uma panelinha onde você põe o café e a água dentro e a leva ao fogo. Roberto já tinha ido trabalhar. Deixei a mocca no fogo e fui ao banheiro. Quando retornei, havia café por todos os cantos. A panelinha disfarçava sua culpa permanecendo inerte sobre o fogo. A parede branca da cozinha era uma grande mancha de café.
Peguei uma esponja para tentar limpar. A tinta começou a se desfazer, formando buracos na parede. Fiz o melhor que pude, mas as manchas ainda estavam visíveis. Por sorte, a parede suja não ficava à vista de quem entrasse na cozinha. Se Roberto não olhasse para ela até a manhã seguinte, eu estaria salvo. Em poucos dias, ele não poderia mais associar aquelas manchas a mim. Não estava com a menor vontade de contar a ele sobre o ocorrido. Saí para dar minhas últimas voltas por Florença. Conversei com o garçom de um bar onde comprei café. Para fazer um florentino rir, basta dizer o nome “Edmundo”. “Ah...o animal!” Outro garçom também sorriu ao ouvir o nome. Não parecem guardar boas recordações da passagem do jogador pelo time local. Fui à Galeria Ufizzi, um museu de arte renascentista que eu sabia que não iria gostar, mas é o tipo de lugar que você não pode deixar de ir quando vai a Florença. Vi Jesus Cristo e sua mãe em várias poses, como já vi centenas de vezes por todos os cantos da Europa. Comprei carne e salada para a janta. Eu precisava comer carne. Por sorte, quando cheguei, Roberto estava
saindo pra jantar com um amigo. Disse a ele que iria depois, já sabendo que não iria a lugar nenhum. Já havia desistido de ser simpático com ele. Pude comer toda a carne que meu organismo precisava. Lavei a louça e vi a mancha. Ela continuava lá, incógnita.
PisaTenha dignidade, meu senhor!