Dias 78 a 81 - Pela manhã, todos ainda estavam em Catania. Fomos os quatro juntos à feira da cidade, a maior da Itália. Os preços eram ridiculamente baratos, mesmo convertendo-os para o Real. Segundo Golpal, o indiano, os preços eram baratos até para a Índia. Aproveitando-se disso, ele comprou uma ridícula blusa de cinco euros para sua namorada. Perguntou se eu queria ver sua foto. Esperava ver uma velha gorda indiana, pois Golpal já não era nenhum garoto. Em vez disso, uma belíssima jovem de vinte e poucos anos. Mesmo assim, seu presente seria uma blusa comprada em um camelô. Como eu era o único a arranhar algumas palavras em italiano, ele pediu minha ajuda para comprar uma jaqueta. Paramos em uma barraca onde os vendedores eram claramente indianos. Pelo que entendi, Golpal era um homem rico, das castas mais altas, e não queria se rebaixar a falar em híndi com eles. Achei melhor não comentar nada, apenas traduzir. Ele não quis pagar cinquenta euros em uma jaqueta falsificada. Comemos um sanduíche de carne de cavalo e nos despedimos. Eu e o chinês fomos pegar o ônibus ruma a Agrigento.
Não há albergues em Agrigento, por isso era essencial
que o chinês fosse comigo, para que pudéssemos dividir um quarto em uma pensão. Foi um inferno caminhar pela cidade com a mochila, já que ela está localizada no meio de uma montanha, o que nos fez subir e descer centenas de degraus. No endereço onde deveria estar a pensão havia um prédio residencial. Toquei em uma campainha que dizia ser a do local que procurávamos. Falei em inglês, pois imaginei que eles também falariam. Começou uma gritaria, como se buscasse pelo único falante de inglês do prédio. Uma voz feminina surgiu apenas para dizer que deveríamos tocar em outro apartamento. Uma voz italiana nos mandou subir. Um velho assustador abriu a porta do elevador e nos levou ao andar de cima. Sem falar uma única palavra em inglês, e sem ao menos tentar falar italiano um pouco mais devagar, ele nos mostrou um quarto, pediu o dinheiro e foi embora. Era apenas um apartamento normal onde os quartos eram alugados. Um velho ainda mais assustador estava na cozinha. Trancamos tudo no quarto e saímos para comer e beber algo. Encontramos um bar onde havia comida de graça no balcão. Pedimos uma cerveja e, sem nenhum pudor, atacamos a comida.
Antes de levar cada prato, a garçonete perguntava se não queríamos finalizá-lo. Não parava de chover em Agrigento. Era o último dia do horário de verão. O chinês roncava de uma forma que eu jamais havia visto, como se intercalasse roncos, soluços e tosses.
Sem saber o que fazer com a bagagem, pois o velho não deu mais as caras no andar de cima, desci para perguntar a ele se poderíamos deixá-las em sua casa enquanto íamos ao Vale. Depois de meia hora tentando explicar o que queríamos fazer, ele finalmente permitiu que as deixássemos trancadas no quarto. Pegamos um ônibus e visitamos um museu e o Vale dos Templos, um bem conservado sítio arqueológico com ruínas gregas e vista para o mar. O chinês também caminhava um pouco devagar. Cada vez mais entendo por que prefiro viajar sozinho. Ele decidiu ficar mais um dia em Agrigento. Eu me despedi, prometi encontrá-lo na China e segui de trem para Palermo, a capital da Sicília.
Sem ter tido acesso à internet no dia anterior, tinha apenas o endereço de um albergue que o chinês havia planejado ficar em Palermo, mas que acabara não ficando. Já era noite quando cheguei
a uma rua que lembrava o que eu imagino ser uma rua boêmia tailandesa. Música insuportavelmente alta, barraquinhas vendendo drinks baratos, vespas passando em alta velocidade e todos os tipos de kebabs e sanduíches. O local onde me hospedaria era, na verdade, um antigo hotel transformado em albergue. Todavia, a estrutura de um hotel não combina com um albergue e, apesar das dezenas de quartos, era impossível encontrar e conhecer gente em seus longos e escuros corredores. Havia mais duas pessoas em meu quarto, mas não estavam lá quando cheguei. Saí para comer. Quando voltei, havia uma jovem romena. Ela havia morado um ano em Palermo e, sempre que podia, voltava para visitar. Disse que o que mais a encantava eram os tão simpáticos sicilianos. Disse a ela que eles não são nada simpáticos, exceto com mulheres. Ela justificou isso pelo fato de a Itália ser um país muito conservador, especialmente no sul, onde as mulheres dificilmente fazem sexo antes do casamento, o que faz com que os italianos pareçam cachorros no cio quando veem uma estrangeira. Por isso, foi impossível arrumar hospedagem pelo couchsurfing no sul da Itália: noventa por cento dos participantes são homens que apenas querem hospedar
mulheres. Uma velha francesa também estava no meu quarto. Conversamos um pouco, a romena me indicou alguns lugares para comer e fomos dormir. O som que vinha da rua parecia estar dentro do quarto. Tive que ouvir as Pussy Cat Dolls e A. R. Rahman cantando “Jai Ho” por ao menos dez vezes. Era a música preferida dos imigrantes africanos que controlavam a rua.
Acordei ansioso para comer um panino com milza, um sanduíche recheado com fígado ao molho pardo típico de Palermo. Não me decepcionei. Caminhei até a beira do mar, de onde podem ser vistas todas as montanhas que cercam a belíssima cidade. Fui ao segundo lugar recomendado pela romena: um boteco onde todos os salgados eram vendidos por setenta centavos. Cada salgado era uma refeição. Pedi três, mas mal consegui terminar o terceiro. Havia muito tempo que eu não ficava empanturrado de comida. Tive que parar e tomar um café para recuperar minhas forças. Se a Sicília já podia ser considerada barata, Palermo conseguia ser o local mais barato de todos. Além de barata, a cidade é uma das mais interessantes da Europa. Ela reúne uma mistura de arquiteturas grega, bizantina, árabe e romanesca, tudo isso
em uma cidade suja e caótica, onde se deve olhar para o chão o tempo todo para não correr o risco de ter um carimbo canino na sola do sapato. O albergue, no entanto, continuava sem nenhuma vibração. Um velho canadense tomava solitário um vinho na cozinha. Falei sobre minha viagem e ele falou meia hora sobre as suas. Ele começava cada história da mesma forma: “Ah, o Egito...”, “Ah, a Turquia...”. Fui comer alguma coisa na rua asiática onde “Jai Ho” tocava a todo volume.
Seguindo mais uma recomendação da romena, fui a um restaurante de comida típica siciliana. Já havia aprendido a não levar a sério recomendações vindas de povos anglo-saxões, pois eles não têm qualquer tradição em comida de boa qualidade. Agora aprendi a não escutar povos que tenham passado mais de trinta anos sob regimes ditatoriais onde os alimentos eram escassos, pois não há como desenvolver o paladar nestas condições. Nada é capaz de me deixar mais mal humorado do que uma refeição cara e ruim. Caminhei revoltado até as catacumbas de Palermo, o local mais estranho que já vi. Localizada abaixo de uma igreja, as catacumbas abrigam dezenas de monges e freiras extremamente bem
conservados, alguns ainda com pelos e olhos. Não havia muita gente visitando o local, o que tornava a experiência um pouco assustadora. Não tive coragem de tirar fotos da maior atração do local: o corpo de uma menina de dois anos de idade perfeitamente conservado, como se fosse uma boneca. Tirar fotos de caveiras, que já estão despidas de qualquer personalidade, é uma coisa; tirar fotos do cadáver de uma criança, por mais que tenha morrido há mais de cem anos, é um pouco diferente.
Caminhei de volta ao albergue passando pela feira de Palermo, quase tão grande quanto a de Catania. Imigrantes africanos e asiáticos vendem seus produtos falsificados. Em um lugar onde mal há emprego para os italianos, só resta aos imigrantes a venda de muambas, ainda mais quando a polícia faz vista grossa para boa parte das atividades ilegais. Certamente não é isso o que esperam quando arriscam a vida para chegar à Europa. O Governo italiano não se importa. Enquanto eles permanecerem na Sicília, está tudo bem. Os sicilianos buscam uma vida melhor no norte da Itália, e, cada vez mais, deixam a ilha abandonada. Os que ficam tornam-se hostis aos estrangeiros que chegam diariamente.
Tão disputada no passado, hoje a Sicília é um fardo que nenhum país gostaria de carregar. Deixar a Máfia no controle é algo muito conveniente.
O velho estava na cozinha do albergue novamente. Perguntou se, durante minha viagem, eu iria ao Egito. Disse que iria. Ele voltou seu olhar para o passado e, como se jamais houvéssemos conversado antes, iniciou: “Ah, o Egito...”.
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Lugar comum elogiar as fotos, mas estão realmente cada vez melhores. Gosto daquelas q mostram o povo no seu dia a dia, além dos monumentos. Divirta-se.
Você tem que colocar logo o texto pra gente entender do que se tratam as fotos. O que são as caveiras??
Logo logo chego aí!
Beijos
Oi Diego !! Quer dizer que agora está na Itália ! (entendi certo? ou já foi pra outro lugar ?) Que legal ! Que lindas fotos !!! Palermo deve ser lindíssimo mesmo. Se vc ainda estiver na Sicília não deixe de ir a Lipari, uma ilha do arquipélago Isole Eole, e ir no vulcão Stromboli que é demais ! beijos
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Lugar comum elogiar as fotos, mas estão realmente cada vez melhores. Gosto daquelas q mostram o povo no seu dia a dia, além dos monumentos. Divirta-se.
Você tem que colocar logo o texto pra gente entender do que se tratam as fotos. O que são as caveiras??
Logo logo chego aí!
Beijos
Oi Diego !! Quer dizer que agora está na Itália ! (entendi certo? ou já foi pra outro lugar ?) Que legal ! Que lindas fotos !!! Palermo deve ser lindíssimo mesmo. Se vc ainda estiver na Sicília não deixe de ir a Lipari, uma ilha do arquipélago Isole Eole, e ir no vulcão Stromboli que é demais ! beijos
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