Dias 60 a 63 - A Itália é um dos países europeus que se encontra mais à direita no momento. Entretanto, isso não exatamente quer dizer que haja um governo conservador por aqui. Berlusconi é um conservador libertino que quer mudar a Constituição. Ele é o protagonista de uma grande novela a qual os italianos assistem como se fosse uma grande comédia. Apoiado pelos muito ricos e pelos muito pobres, Il Cavaliere é o chefe de Estado mais interessante do ocidente. Em nenhum outro lugar da Europa ele seria primeiro-ministro. Mas, na Itália, ele é a grande diversão dos telejornais. No dia em que cheguei a Bolonha, a Suprema Corte italiana (a corte que não vale nada para Tarso Genro) decidiria se o cargo de primeiro-ministro conferiria ou não imunidade a Berlusconi. Como se acompanhassem uma Copa do Mundo, os italianos vibraram com a decisão contra Berlusconi. Como se acompanhassem uma novela, eles riram das frases que o primeiro-ministro disse após a decisão, dentre elas a surreal “Esta decisão tem tanta importância para mim quanto um pepino”.
A Universidade de Bolonha é a mais antiga da Europa e a maior da Itália. Lugi, meu anfitrião na cidade, é o assessor de
imprensa da Universidade. No dia em que cheguei, uma lista das duzentas melhores universidades do mundo havia sido divulgada. Bolonha ficou em cento e sessenta e pouco. A melhor universidade da Itália ocupa uma das últimas posições do ranking. Quando se anda pelas ruas de Bolonha, por baixo dos arcos que protegem suas calçadas, é possível se entender que tipo de educação é oferecida por lá. Sendo o Primeiro-Ministro italiano conservador, o corpo docente, como é de praxe, será de esquerda. Por isso, Bolonha é conhecida como a “Cidade Vermelha”, e isto não por ser esta a cor predominante em suas construções. As pichações em suas paredes dizem tudo. A praça em frente à universidade, onde alunos encardidos e revolucionários deitam no chão imundo para beber cerveja, como se isso fosse um gesto de rebeldia, diz mais ainda.
Antes de ir à Bolonha, passei uma noite em Ferrara. Já estava a quatro dias na casa de Daniele, sendo que havíamos combinado três dias anteriormente. Não tive coragem de pedir para ficar mais uma noite. Hospedei-me em um albergue no centro de Ferrara. Eu era um dos poucos turistas hospedados. Os outros hóspedes eram italianos do sul do país que vinham
para o norte em busca de emprego. Havia também uma holandesa de sessenta e poucos anos que estava viajando a oito. Conversamos por algum tempo no jardim do albergue. Sem muito que fazer, tirei a noite para descansar em meu quarto, o que foi difícil, pois um italiano e um americano travaram uma dura batalha de roncos. Acordei, dei uma volta pela cidade, famosa por sua enorme quantidade de bicicletas, e peguei mais um trem.
Quando cheguei a Bolonha fui ajudado por um estudante. Ele me deu um mapa e me indicou o local que eu procurava. Peguei um ônibus e cheguei à casa de Luigi. A casa de Luigi era arrumada demais, ele era, digamos, amável demais, preocupado demais. Havia algo de diferente naquela história. Saímos para jantar. Comi pasta com ragú, o molho conhecido no mundo todo como “bolonhesa”, mas que, em Bolonha, obviamente, não é assim chamado. Muito menos comido com espaguete, pois este é original de Nápoles. Depois disso me fartei em uma tábua de frios italianos. Durante o jantar, a delicadeza excessiva de Luigi foi esclarecida. De fato, ele era gay. Ele não me disse isso, mas ficou claro quando ele falou algo sobre relacionamentos.
Luigi se deu ao trabalho de ir até aos Estados Unidos fazer campanha para Obama. Falar mal de Obama para ele seria um tanto contraproducente. Mesmo assim, quando fomos tomar uma cerveja em um bar próximo à sua casa, tentei. Criticar Obama na Europa é quase uma blasfêmia. Luigi ficou um pouco desorientado por encontrar alguém que não o exaltasse por ter cruzado o Atlântico para apoiar aquele “homem bronzeado”, como diria Berlusconi. Após uma breve discussão, ele logo admitiu não acompanhar assiduamente a política norte-americana.
Bolonha é mais uma cidade que demonstra a diversidade italiana. O cenário urbano muda drasticamente. A confusão, no entanto, é ainda maior. Estudantes, traficantes de drogas, imigrantes, velhos, bicicletas e vespas tomam conta das ruas. As paredes descascadas e pichadas dão o toque italiano à arquitetura. Comi um sanduíche em um lugar onde o dono me contou sobre sua viagem ao Rio. À noite, mais uma inesquecível experiência gastronômica. Luigi e um casal de amigos me levaram a uma autêntica cantina italiana. Além de ser a terra do ragú, Bolonha também criou a lasanha. Depois de minha primeira lasanha de verdade, tudo o que eu voltar a comer nesta vida que seja chamado “lasanha”
será algo diferente, e não o que comi em Bolonha. Nada pode se comparar ao que encontrei por lá. O segundo prato foi tripa, que na Itália é preparada exatamente igual a nossa dobradinha. A sobremesa foi mais uma discussão sobre política. O simpático amigo de Luigi, que estava acompanhado por uma namorada, e não um namorado, perguntou algo sobre Lula, esperando ouvir elogios entusiasmados. Como sempre faço, decepciono os europeus com minha resposta. Como eles pouco sabem sobre o que se passa no Brasil, costumam aceitar minha opinião como se fosse a de um especialista. Ao fim de minha fala, o amigo emendou: “É, ele não é o Obama...” Dei um sorrisinho e torci para que aquilo terminasse ali. Luigi não se conteve e abriu sua boca: “Ele não gosta do Obama”. O sujeito me olhou como se encarasse o diabo em pessoa. Luigi tentou me ajudar, mas apenas me fez parecer um judeu paranóico: “Ele está preocupado com a bomba nuclear do Irã”. Certamente ele não prestou atenção em metade do que falei na noite anterior. Mais uma hora falando sobre Obama. No dia seguinte, o presidente americano foi laureado com o Nobel da Paz. Imaginei que Luigi
fosse chegar em casa triunfante. Mas não. Ele apenas comentou a notícia dizendo: “Um pouco cedo, não?”. Sim, muito cedo. Até um comunista italiano foi capaz de reconhecer isso. Outros, porém, devem ter celebrado em frente à Universidade de Bolonha, tomando cerveja no chão e conversando sobre a última vez em que lavaram o cabelo.