Dias 68 a 72 - Uma cidade litorânea abandonada pelo poder público e dominada por um poder paralelo. Bairros onde a polícia não pode entrar. Ambulantes pelas ruas. Trânsito caótico. Pedestres que, de uma hora para a outra, podem ter seus pertences roubados por motoqueiros. Lixo e cocô de cachorro pelo chão. Como diria Ancelmo Gois, deve ser terrível viver num lugar assim. Nápoles, entretanto, ainda é uma cidade italiana - e a Itália ainda fica na Europa. Os mencionados problemas da antiga capital do Sul da Itália só chamam atenção por isso. Nápoles poderia, sem dúvidas, ser uma aprazível cidade latino-americana.
Roberto não viu as manchas antes de sair para o trabalho. Quando acordei, pude comer o resto da carne que comprei antes de seguir viagem. Após sete horas, cheguei a Nápoles. Ouvi tantas vezes que deveria tomar cuidado por lá que cheguei completamente paranóico. Os habitantes da cidade não ajudavam muito em me fazer acreditar que não havia motivos para preocupação. Ali era o único lugar em que os habitantes locais pareciam mais perigosos do que os imigrantes. Todos com suas jaquetinhas de couro preto brilhante, conversando pelos cantos, como se a qualquer momento fossem explodir o local ou
promover um arrastão. Em alguns minutos, porém, você percebe que não há nada acontecendo. Saí da estação e fui à procura do albergue onde me hospedaria.
Depois de muito tempo, não consegui arrumar alguém para me abrigar em uma cidade. Teria que voltar aos albergues, e, após tanto tempo, não seria má idéia encontrar outros viajantes. Como indicado pelo mapa, entrei em uma das centenas de ruas estreitas de Nápoles, onde é necessário se espremer na parede quando um carro passa. No número indicado havia apenas um prédio normal. No interfone, havia o nome “Giovanni”, sem nenhuma menção à existência de um albergue com o nome “Giovanni’s Hostel”. O homem que atendeu confirmou a existência do albergue e me mandou subir. Um velho italiano careca me recebeu com um copo d’água. Ele disse não haver vagas para a noite, mas disse que iria me ajudar a procurar outro lugar. Cerca de dez pessoas haviam chegado pouco antes de mim. O velho, que era o próprio Giovanni, me convidou para ouvir suas explicações sobre a cidade. Pouco antes de começar, ele disse que havia uma vaga para mim. Giovanni falou por quase uma hora sobre Nápoles: os lugares aonde ir, aonde
não ir, onde comer pizza, etc. Ele falou sobre a máfia e fez uma piadinha com a violência do Rio. Quando terminou, um casal de americanos se virou para mim excitado e me confidenciou, com a voz baixa, como se trouxessem noticias de um refugiado político que eu já dava como morto: “Nós acabamos de chegar do Rio”. Os dois me contaram animados sobre os dias que passaram por lá e de quanto gostaram. Eles também estavam em uma viagem de volta ao mundo.
O albergue era o apartamento de Giovanni. Graças a sua dedicação, ele já ganhou algumas vezes o título de melhor albergue do mundo. E uma das razões para isso é que, quase diariamente, ele prepara um jantar gratuito para os hóspedes. Naquele dia, ele preparou pasta com feijão. Como todos eram americanos, australianos ou canadenses, e anglo-saxões são cheios de frescura para comer, o fato de haver feijão fez com que muitos não repetissem o prato, o que me deu a oportunidade de repetir duas ou três vezes. Após o jantar, Giovanni pegou seu violão. Foi quando descobri que Funicolí, Funicolá, tem uma letra inteira, e bem grande. Todos tiveram que cantar o refrão quase
dez vezes. Giovanni conseguia nos fazer saber que estávamos em Nápoles, o que às vezes pode ser difícil em um albergue onde todos falam inglês.
A primeira coisa que quis fazer em Nápoles foi comer uma pizza. A pizza foi criada na cidade e, reza a lenda, as melhores pizzas do mundo estão por lá. Fui ao local indicado por Giovanni, Di Sorbello. Várias pizzarias se consideram o berço da pizza e alegam produzir a melhor do mundo, e esta era uma delas. A melhor pizza do mundo sairia por quatro euros. Como a lasanha de Bolonha, a pizza de Nápoles não pode ser comparada às outras, pois é algo completamente diferente. Deliciosa, inesquecível, mas que transforma todas as outras em algo que não pode ser classificado como pizza. O casal de americanos se juntou a mim. Separamo-nos após o almoço. Andei pelas ruas sujas de Nápoles. Há alguns anos, eram ainda mais sujas, desde que a Máfia, que na região se chama Camorra, percebeu que coletar lixo era mais rentável do que vender drogas. O problema era que os mafiosos não queriam gastar dinheiro tratando o lixo e nem tinham o conhecimento logístico necessário para recolhê-lo. Como resultado, a
terra e os rios de Nápoles foram contaminados. A população, em protesto, passou a incendiar o lixo que se acumulava pelas ruas. A Camorra achou melhor cuidar do lixo com um pouco mais de eficiência. A situação ainda não é a ideal, mas, ao menos, ninguém mais está incendiando lixeiras.
Quando alguém marca um lugar no mapa e diz que você não deve ir nesse lugar, a tentação é irresistível. Giovanni marcou com uma linha roxa os lugares que não deveriam ser freqüentados por serem regiões controladas pela Camorra. O Bairro Espanhol é considerado o lugar mais perigoso de Nápoles. Para mim, entretanto, não haveria qualquer problema, pois eu sou invisível, sou apenas um imigrante ilegal caminhando por um bairro lotado de imigrantes ilegais. Em uma das ruas que dá acesso ao local, um carro da polícia estava estacionado. Dentro dele, seis policiais jogavam um animado carteado, sem qualquer preocupação por estarem sendo vistos. O bairro consiste em ruas estreitas, casas pobres e bares animados. Nada muito assustador. Achei prudente não tirar fotos, mas, mesmo se o fizesse, não creio que teria maiores problemas. Apenas no fim da rua, onde um decadente conjunto habitacional se ergue, a barra fica um
pouco mais pesada. Dei meia volta e fiquei satisfeito com meu passeio. Andei até o porto, vi um castelo e voltei para o albergue. Comprei vinho por um euro e cinquenta e capeletti por um euro. Bebi e conversei com os mesmos americanos, australianos e canadenses de sempre.
Tentei acordar cedo no dia seguinte para visitar as atrações ao redor de Nápoles. Logo de manhã, visitei o Vesúvio, o vulcão que destruiu a cidade de Pompéia a dois mil anos atrás. Um tranquilo e nada aventureiro passeio de van me conduziu até o topo. Era o primeiro vulcão que visitava em minha vida, e a experiência foi extremamente decepcionante. Esperava encontrar uma cratera por onde eu poderia ver lava borbulhando no centro da Terra. Em vez disso, apenas um vale de pedras que soltavam uma fumacinha tímida. Ao menos se tem uma visão panorâmica de Nápoles do topo do vulcão. Segui, então, para Pompéia. Passei toda a tarde caminhando pelas ruas da antiga cidade romana. Por ser uma cidade enorme, mesmo repleta de turistas é possível se caminhar sozinho por várias ruas menos visitadas de Pompéia. Esperava, apenas, que a quantidade de pessoas carbonizadas fosse maior. Somente uns três seres
que viraram pedra estão em exposição. Como a noite agora chega cedo, e não há qualquer iluminação em Pompéia, tive alguma dificuldade em encontrar a saída. Peguei o trem de volta a Nápoles. O trem passa por estações onde não há mais qualquer espaço para pichações em suas paredes. Comprei vinho e voltei para o albergue. Giovanni cozinharia novamente.
Desta vez sua receita, pasta com grão de bico, fez mais sucesso, o que me impediu de ficar satisfeito. Depois de sua tradicional apresentação musical, onde novamente cantamos Funicolí, Funicolá, ele passou o violão para um americano. O sujeito levou um tanto a sério o pedido para que cantasse uma música e realizou um performance afetada e cheia de trejeitos, como se fosse uma mistura de Justin Timberlake com George Michael. A sensação de vergonha alheia tomou conta do ambiente. Apenas uma japonesa parecia adorar, pois japoneses sempre adoram qualquer coisa.
Americanos, em geral, não fazem questão de se misturar com outras nacionalidades. Por isso, com a chegada da japonesa e de duas francesas, um grupo não americano se formou. Um casal de canadenses que não gostava muito de americanos também procurou ficar do nosso lado. Bebemos mais um pouco e
fomos dormir.
No dia seguinte, uma chuva desabou sobre Nápoles. Tive uma ótima desculpa para passar um dia sem fazer nada, algo que necessito uma vez ou outra. Apenas saí para comer outra pizza que se considera a melhor do mundo, andei um pouco e voltei para o albergue. Pelo resto da tarde, não fiz nada que não fosse ler ou conversar no albergue. Mais uma noite de vinho e cozinha de Giovanni. Mais Funicolí, Funicolá. Depois de passar algum tempo naquele albergue, Giovanni começou a me parecer mais maluco do que simpático. Diariamente, o vi fazendo o mesmo discurso de uma hora por três ou quatro vezes. Por ser o único dono e funcionário, sua presença parece estar em todos os lugares. Onde quer que eu estivesse, Giovanni surgia em poucos segundos, nem que fosse ao menos sua cabecinha no canto da porta. O prato foi pasta à putanesca, e, mais uma vez, nada sobrou. Sobraram apenas garrafas de vinho barato. Fiquei bebendo com os canadenses e mais outros americanos e australianos. O canadense pegou uma garrafa de rum. Durante o discurso de entrada, Giovanni menciona que não tolera bêbados em seu albergue. Um tradicional jogo de cartas cujo
objetivo é embebedar o mais otário começou. Uma australiana começou a perder, e logo estava completamente bêbada. Tentávamos impedir, mas ela falava cada vez mais alto. Giovanni então surgiu furibundo e mandou todos dormirem. Tentei argumentar, mas ele disse que era melhor eu não falar nada e dormir. A australiana começou a chorar dentro do quarto, acordando a todos. Um pouco constrangido, Giovanni se desculpava, mas ela não lhe dava ouvidos. Nos dois dias seguintes, ele não seria mais o mesmo velhinho bonzinho.
Tive a brilhante idéia de assistir a um jogo do Campeonato Italiano. Até aí, tudo bem, não estivesse eu em Nápoles. O casal de canadenses me acompanhou. Eles tinham dezoito anos. Eu parecia um pai levando os filhos ao estádio, não só pela idade, mas pela inocência deles. Antes disso, comemos mais uma pizza. Os arredores do estádio não estavam muito movimentados. Caía uma chuva fina. Depois de perguntar com meu italiano rudimentar onde poderia comprar ingressos, fui informado de que não havia ingressos à venda no dia do jogo. Sem problemas. Afinal, sou brasileiro, carioca ixperrrto. Procurei por um cambista. Não aceitei os primeiros preços, pois queria pagar o preço da bilheteria, já que o estádio
não estava lotado. Um malandro surgiu e disse que aceitava que eu pagasse vinte euros. “Você fala italiano?”, ele perguntou. Disse que não. “Espanhol?”. “Um pouco... Mas por que eu preciso falar alguma língua pra comprar um ingresso?”. Ele disse que era um esquema especial para os amigos de um fulano que estava controlado a catraca. Era só eu ir lá e falar que era amigo de não-sei-quem. Bem, esse me achou otário demais. O próximo, no entanto, foi melhor. Ele tinha ingressos e tinha atitude. Compramos logo três. Ninguém se daria ao trabalho de falsificar ingressos para um jogo morto com aquele. Entreguei os ingressos na entrada. O homem que controlava o acesso pediu minha identidade. “Ma che cazzo...”, ele começou a resmungar. Ele chamou alguém que sabia falar inglês. Um homem bem mais calmo e simpático nos explicou que o ingresso era intransferível, e o nome do dono estava escrito em letras miúdas no bilhete. Eu não era Luigi, por isso fui barrado. O homem ficou com pena de nossas caras de otário, ainda mais por causa dos canadenses. Após alguma hesitação, disse que nos deixaria entrar, mas que deveríamos tomar cuidado na próxima vez. Depois do que
vimos dentro do estádio, não haveria próxima vez.
O jogo era Nápoles e Bolonha, uma partida sem qualquer importância para o campeonato. O coro da torcida parecia mais querer assustar do que incentivar os jogadores. Ficamos na arquibancada inferior, a mais barata. A torcida organizada estava logo acima de nós. Aos quinze ou vinte minutos do primeiro tempo, talvez pela ausência de emoções no jogo, os torcedores que estavam acima de nós resolveram se divertir jogando bombas em sua própria torcida. Algumas começaram a explodir a cerca de trinta metros de nós. Elas tinham força suficiente para despedaçar as cadeiras. Achei que estávamos seguros em nosso lugar, pois ninguém saiu dali com as explosões. Em um segundo, no entanto, todos estavam correndo. Sou incapaz de lembrar como corri do lugar tão rapidamente. Uma bomba havia caído quase ao nosso lado. Os policiais apenas tapavam os ouvidos para não machucarem seus tímpanos com o barulho. Os torcedores protestavam e pediam que eles tomassem uma atitude, mas eles pareciam mais interessados em ver o jogo. A solução encontrada pelos policiais foi mandar todo mundo para a arquibancada superior, junto aos terroristas. Eu era a pessoa mais preta naquele estádio lotado de fascistas.
Era melhor me expor às bombas do que subir para a arquibancada. Como os canadenses também não estavam muito confortáveis com a idéia, resolvemos sair do estádio ao término do primeiro tempo. O Nápoles perdia por um a zero. Ainda ouvimos algumas bombas enquanto caminhávamos para o metrô.
Ninguém mais agüentava o vinho barato de Nápoles, por isso apenas fizemos um jantar, já que Giovanni ainda estava de mau humor. A japonesa ficava aplaudindo como uma doida cada ingrediente que eu punha na panela. No fim da noite, um brasileiro chegou ao albergue. Havia muito tempo que eu não falava português pessoalmente. Enquanto falava, tinha a sensação de que ele não me entenderia. Talvez eu o tenha assustado com tanto falatório, pois, como ele morava em Portugal, não sentia falta de falar a própria língua, enquanto eu finalmente podia expressar todos os meus sentimentos com uma imensa variedade de adjetivos. Falar português foi apenas mais uma experiência que fez de minha passagem em Nápoles uma pequena volta para casa.
4 Comments -
Add Public Comment or
Send Private Message
Diego,
Acompanhamos sua passgem por Nápole. É uma cidade sem muitos atrativos e um tanto perigosa. Mas, acho que valeu pela melhor pizza do mundo.
Continue, sempre que puder, suas narrativas para nosso deleite.
Agora, em vez de dormir com Jô, estamos dormindo com você.
Abraços,
Seu pai.
Nao tirou foto do estadio ???
Nao seria boa idéia levar uma câmera...
Add Comment
1 message(s) await review.
All Comments