A terra tremeu no centro da Italia, 5.8 Richter. Na provincia de L’Aquila, quase 300 mortos, milhares de desabrigados.
Giampaolo Giuliani, pesquisador do Instituto Nacional de Física Nuclear do Gran Sasso, alí mesmo no Abruzzo, previu o terremoto dias antes, em modo talvez inusitado. Avisou autoridades, mas não foi escutado. “Terremotos não se podem prever” e todo italiano sabe que convenções não se mudam! Foi proibido de dar entrevistas e denunciado. O chamaram de “xiliquento”, paranóico. O responsável da Proteção Civil, Guido Bertolaso disse: "Aqueles imbecis se divertem dando notícias falsas”, pedindo punição exemplar ao procurador do alarme. E agora quem denuncia Bertolaso por procurador de mortes?
Mas nem precisava de pesquisador de instituto pra saber que o pior estava por vir. Moradores de L’Aquila estavam sentindo “pequenos” tremores há mais de 2 meses e quem tem milênios de catástrofes naturais no lombo, terremotos e vulcões inclusos, sabe que é assim que começa. Então, como é possível que não o tenham escutado e que ninguém tenha se preparado, o mínimo que fosse? Nem população, nem forças de ordem, ninguém. As lições do passado realmente não ensinaram nada, pois as casas de construção mais recente foram as primeiras a cair. De fato, 5.8 não é considerado assim devastante, mas a cidade está completamente destruida. As casas foram feitas fora das normas anti-sismicas, apesar de terem sido vendidas (e caro) como se fossem. Eram sem cimento armado, com areia do mar e poucas traves de sustentação, só pra começar. Ah, sim, dizem, tudo obra dos camorristas, o grupo mafioso da vizinha Nápoles. Enquanto isso o cartunista que satirizou a situação foi punido com censura e afastamento da mídia.
Saqueadores, chamados "chagais", fazendo a festa na noite de casas abandonadas cheias de jóias e dinheiro embaixo do colchão. Todo italiano sabe que "dinheiro não se deixa no banco"!
E ladrão por ladrão, os comerciantes locais que reabriram suas lojas por amor aos seus conterraneos, estão cobrando 5 euro por um kg de pão, 10 euro por um maço de cigarros e 90 euro por 1 kg de carne. Para os "chagais", e somente para os "chagais", o governo anunciou uma severa punição. De fato, vários italianos foram pegos com a boca na botija, 80/ 100 mil euro de valores em sacolas e mochilas, mas após dias de "chagalismo" local, apenas 3 romenos foram encarcerados.
Falta água, abrigo, cuidados médicos, esses, que já faltavam mesmo antes do terremoto. [Gente das cidades vizinhas aparecem por lá com receitas, sintomas e seringas pedindo uma "consultinha" porque sabem que encontram reunidos médicos e enfermeiros]. O caos, o pânico, o drama total se formou como se fosse a primeira vez. Todo italiano sabe que “a vontade de Deus está acima de tudo”!
Agora todos os canais e jornais de Silvio Berlusconi se ilustram com as mesmas entrevistas de rostos desesperados, ensanguinados declarando a “surpresa dos fatos” e debates com seus ministros e jornalistas “endereçados” repetindo em debates organizados que “Terremotos não se podem prever” “Terremotos não se podem prever” “Terremotos não se podem prever”!
E por isso, é meu primo geologo, que das suas fontes no Brasil, monitora os tremores e me da' noticias mais precisas.
O drama é um gosto do povo italiano, os médicos choram ao vivo “nunca vi tanto sangue”. (Não? Nem na faculdade de medicina de presença não obrigatória ou numa cirurgia?). Pessoas a 200 km do epicentro que ouviram uma cuspidinha da terra, dão entrevistas desesperadas de pavor. Me fazem lembrar uma cena de Xangô de Baker Street, quando o artesão italiano se joga no chão, grita e chora quando sabe do roubo do violino. Watson se assusta, abre a maleta e pega um calmante:
-“Sherlock, este homem está tendo um ataque!!”
-“Não, Watson, ele é só italiano...
Ultimamente o drama se mistura à necessidade de protagonismo desta gente, que se sente diminuindo de importância no mundo a cada dia. Telefonei para uma amiga que estuda em L’Aquila, mas já sabia que ela não estava na cidade. Perguntei se a sua republica estava em ordem e ela me respondeu com a voz mortificada de não-participante:
-“Sim, sim, tudo em ordem com a minha casa e com as pessoas que eu conheço”, pausa e mudança de tom murcho para eufórico, “mas a casa do lado, menina, caiu inteira. Uma loucura, uma tragédia!! Tem um menino que é amigo do colega da prima da minha amiga que está desaparecido, ai, estou tão preocupada, não sei o que fazer!”
Nem um “graças a Deus estou bem”, da sua faculdade, do retorno às aulas, nada, só uma vontade imensa de estar rodando alí pelos escombros e quem sabe ter seus 15 minutos de fama fora do Facebook.
Foi então que eu escutei na TV um jornalista ao vivo, todo animado, dando as últimas notícias da solidariedade italiana, sobre os hoteleiros da costa do Abruzzo que estavam “fazendo fila” para oferecer os apartamentos dos seus hotéis aos desabrigados, sempre às moscas neste período. E eu, que mantenho linda e forte minha alma Brasileira, me emocionei e bronqueei comigo mesma a falta de confiança na italianidade. Até ler a primeira página do jornal Il Messaggero
TravelBlog “AOS DESABRIGADOS: TODOS PARA A PRAIA, PAGA O ESTADO”, com as palavras de Silvio Berlusconi, diretamente aos cidadãos de L’Aquila: “Todos para a costa, é feriado de Pascoa, tirem uma férias que nós pagamos. Estejam tranquilos, nós faremos o inventário das casas danificadas e vocês vão para a praia, porque o Estado está ao lado de todos. Vocês serão servidos e estimados”. E aos meninos que gritavam, “Força Milan!” (time de futebol de propriedade do primeiro-ministro) ele respondeu, “Muito bem, digam à mamãe de levá-los para a praia, que os hotéis estão reservados.”
E assim, dezenas de falsos desabrigados se apressaram a assinar a lista por umas férias pagas nas lindas praias de areias negras do Abruzzo.
Conhecendo como funcionam as coisas por aqui, vejo a oportunidade e os oportunistas desta ocasião: os esfolados; o campo livre para o Estado fazer sozinho o inventário das casas; os hotéis da costa vazios; os hoteleiros, que são também construtores, grandes parceiros de Berlusconi, inclusive nos tribunais... “Castelo de areia” aqui é pinto! E os mesmos construtores já estão esfregando as mãos com outro anúncio: “Vamos reconstruir as velhas cidades da Italia, faremos as New Towns (projeto já esquecido pela União Européia, pelo comprovado falimento), começando por L’Aquila. Os bancos são disponíveis para novos financiamentos”. Sim, os bancos italianos, gentis parceiros, de Berlusconi e do paraiso fiscal de San Marino, estes, ao contrário, nem passam perto dos tribunais.
Só pra melhorar as coisas, o primeiro-ministro, arrogante como o seu povo, recusou a ajuda de todos os Chefes-de-Estado que ofereceram dinheiro, dizendo publicamente e num tom muito ofendido: “Não enviem ajuda para Abruzzo. Somos capazes de responder sozinhos às nossas exigências, somos um povo orgulhoso e rico (PIB: - 4,3%, negativo há anos). Os agradeço, mas nos bastamos sozinhos”. Cinco minutos depois, “abriu as pernas”, passou o chapéu e aceitou a esmola de 50.000 dólares de Barack Obama (sim, o “bronzeado”!). E o chapéu continua rodando. Quer fazer o G8 em L'Aquila e pedir para cada pais adotar um monumento histórico. Daqui há pouco vão cortar a gravata também.
Uma última coisa que me impressionou (e não so' a mim) foi a quantidade de crianças e jovens mortos em relação as velhos que se salvaram, inclusive uma senhora de 98 anos, que passou 30 horas na sua cama, presa debaixo dos escombros fazendo crochê. Não sei se tem uma razão, mas por aqui saberão. Todo italiano sabe que Deus e todos os santos e entidades espirituais de toda a humanidade, estão no Vaticano!
Enquanto isso, a terra continua tremendo por aqui.
PS aos "mal-interpretantes" de plantão: toda a minha solidariedade aos abruzzesi, aqui em casa estamos no programa de ajuda. So' não significa que os terremotos me tenham cegado.
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Vc nao disse nada do q a gente aqui nao tenah realmente visto e ouvido, entao se te criticarem, manda realmente pra aquele lugar. Beijao.
Esse homem é um absurdo mesmo!!!!!
Amiga, não vejo a hora que você volte pra cá e deixe esses doidos pra trás, estou com o coração na mão.
Fique com Deus.
E a entrevista com o carinha da proteçao civil? Ta passando toda hora! - Espero que desta vez o governo seja menos ladrao! Coitado desse povo, vão ficar na barraca até só Deus sabe. É foda.
Ve se é hora de falar de politica!
Claro que é. Principalmente esta é a hora de falar de politica. Quando o povo ta sendo usado. Anonimo tolinho.
tudo o que esta acontecendo, mais triste ainda é saber que poderia ser evitado, desde o inicio, desde a construçao das casas sobre as normas. mais triste ainda é como os politicos e a imprensa italiana esta conduzindo esta tragédia. Fa davvero schifo.
asssisti o debate do Anno Zero ontem e entre tantas coisas eu entendi bem que essa desgraça é responsablidade de todos, inclusive dos aquilanos. os estudantes fazem anos que vivem naquele predio sem escada de saida, com o cimento da paredes caindo em cima e nunca denunciaram a ninguem. a primeira garrafa de agua chegou no local 12 horas depois do crollo e ate agora nao tem agua para banho na tendopolis. como disseram, a italia tem a cultura da falta de resposnsabilidade e de organizaçao. o menefreghismo geral causa isso também. Pena.
JA CAIU TUDO, JA MORREU UM MONTE DE GENTE, AGORA EH HORA DE FALAR DE POLITICA SIM. ESSES ABUTRES ESTAO EM CIMA DESSA GENTE QUE NEM CARNIçA PRA ROUBAR NA AVALIAçAO DAS CASAS E SE SAFAR DAS DENUNCIAS PELOAS CONSTRUçOES CRIMINOSAS, ISSO SIM. A CAMMORRA NO ABRUZZO EH FODA HEIM?! FALA SERIO!
incrivel o sensassionalismo desses reporters. eles estao ja cansados, nem tem mais o que dramatizar, estao entrevistando tipo: falai do seu irmao morto entao. E a entrevistada ta la col sorriso tipo 'Galvao to na TV' até chegar a camera, dai começa a chorar. PODREEEEEEEEEEEEEEEEEEE
A censura come solta na ditadura berlusconiana. Vao contratar a solange!
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