Os dois meses em que permaneci sem acesso à Internet me impossibilitaram de atualizar este blog com frequência. Agora que posso atualizá-lo, me falta paciência para escrever sobre tudo o que já passou, até porque não foram muitos os acontecimentos dignos de nota. Tentarei apenas resumir tais acontecimentos.
No fim do primeiro mês, consegui meu primeiro emprego na Irlanda. Havia telefonado para um restaurante que oferecia uma vaga para garçom e a dona do restaurante, Georgina, praticamente me deu o emprego sem ao menos me ver. Ficou animada com o meu inglês e por eu ter dito ter dois anos de experiência como garçom. Mas como eu poderia imaginar que anos de experiência sentado em mesas de bar não me serviriam para nada?
No dia seguinte, fui até o local. O restaurante ficava em Ballymore Eustace, no condado de Kildare, um vilarejo de setecentos habitantes a uma hora e meia de Dublin. Conversei um pouco com Georgina e ela me deu o emprego. Na mesma hora o marido dela me enfiou dentro de seu carro e saímos à procura de um quarto para alugar. Todos pareciam simpáticos e atenciosos. O salário oferecido estava acima da média, a cidade era
calma. Meu plano parecia prestes a se realizar exatamente como fora planejado Era uma sexta-feira e meu primeiro dia seria na terça.
Passei meu último fim-de-semana em Dublin gastando dinheiro como até então não tinha gastado. Saí para beber, comprei livros, roupas, cerveja para um churrasco. O futuro era belo e promissor. Eu não sabia que era apenas a bonança que antecede a tempestade.
Na segunda-feira à noite me mudei para Ballymore. A casa onde moraria era velha, mas o quarto era ótimo. Havia ainda na casa um italiano obcecado por comida natural, uma letoniana careca que usava peruca (o que me confundiu no início, pois eu achava que a mulher loira e a mulher com um lenço na cabeça eram duas pessoas diferentes), outra letoniana mais jovem e uma russa grosseira de quarenta e poucos anos.
Na manhã seguinte me apresentei em meu novo emprego trajando camisa social, gravata, calça e sapatos bico-fino que logo começaram a estrangular meus dedos. O gerente, Liam, me mostrou todo o restaurante. Acompanhei o atendimento de algumas garçonetes e voltei para casa três horas depois, pois o restaurante estava vazio. No dia seguinte, novamente poucas horas de trabalho. Imaginei que o
trabalho seria sempre esse: restaurante vazio, algumas mesas para atender, alguns copos para limpar e só. Sem nenhuma habilidade, levava os pratos para as mesas de forma estabanada, mas, até então, nada me diziam sobre isso. Ver-me no espelho do restaurante vestindo uma gravata e segurando pratos me fazia ter que segurar o riso. A única dica que me deram nos primeiros dias foi para não confiar no Liam, pois ele não seria boa pessoa. Eu apenas respondia que ele não me parecia ser uma má pessoa. No dia seguinte, o restaurante começou a encher. Por sorte, ou azar, outra gerente surgiu. Seu nome era Maeve e ela só trabalhava nos fins-de-semana. Ela percebeu minha completa falta de habilidade com os pratos e resolveu me ensinar alguma coisa. O trabalho de garçom começou a parecer mais complicado. Nos dois dias seguintes, minha farsa chegou ao fim. O restaurante lotou nos dois dias, e logo minha suposta experiência como garçom deveria me indicar o que fazer em situações assim. Mas eu apenas tentava cumprir ordens que surgiam de todos os lados. Tentava adivinhar em que etapa do longo processo de atendimento estavam as mesas, um processo que, segundo entendi, poderia ser
assim resumido: servir água, oferecer a bebida, entregar os cardápios, dizer o prato do dia, voltar em dois minutos, anotar os pedidos, cortar alguns pedaços de pão claro e outros de pão escuro, colocá-los em uma bandeja com um pratinho de manteiga e outro com um molho verde, servir o pão, anotar os pedidos, conferir os pedidos na cozinha, servir as entradas, recolher os pratos da entrada, colocar os talheres para o prato principal, servir o prato principal, esperar três minutos e perguntar se está tudo ao agrado, recolher os pratos, oferecer a sobremesa, colocar os talheres de sobremesa, servir a sobremesa, retirar os pratos, fechar a conta, levar a conta, receber o dinheiro e dar o troco. Somem-se a isso as regras sobre posição dos talheres na mesa, formas de segurar pratos e copos e irlandeses falando algo parecido com inglês e o resultado não será satisfatório. Não tardou para que Georgina me perguntasse: “Você nunca segurou uma bandeja na vida, não é verdade?”. “Sim, já, mas no Brasil as bandejas são diferentes”. Ela disse que era melhor eu falar a verdade e prometer que aprenderia rápido do que mentir. “Tá bom... Eu nunca segurei”. Ele me levou para
a cozinha e me ensinou como segurar os malditos pratos corretamente. Um pouco de sangue-frio é necessário para não arremessar os pratos na parede ou para não chorar. Naquele dia, um sábado, Liam disse que eu poderia tirar um dia de folga no domingo, prometendo me ligar para avisar quando eu trabalharia na semana seguinte. Antes de sair, Maeve me deu um conselho: “Compre sapatos novos, mais confortáveis. Você mal consegue andar nesses”.
No dia seguinte fui a Dublin e comprei novos sapatos. A semana se iniciou sem que me ligassem. Liguei para o Liam na segunda à tarde, e ele disse que, caso fosse necessário, me ligaria no dia seguinte. Nenhuma ligação na terça. Na quarta-feira, fui até o restaurante pegar meu pagamento pelo trabalho da semana anterior. Perguntei ao Liam se eu ainda trabalhava lá. Ele disse que não sabia, pois Georgina ainda não havia decidido nada. Pedi para falar com ela, mas ele disse que ela não estava. Disse para eu voltar no dia seguinte para pegar o dinheiro. Na quinta-feira, Maeve estava lá e disse que eu não trabalhava mais lá, pois, segundo Georgina, eu talvez fosse “muito qualificado” para ser garçom. Pedi para falar com
ela, mas novamente ela não estava. Peguei o dinheiro e fui embora com vontade de atear fogo no restaurante. Não que eles devessem ter qualquer obrigação de me manter lá, mas ao menos um pouco de consideração por eu ter me mudado para uma minúscula vila somente pelo trabalho. Poderiam ter me colocado em outra função, não sei. Um pouco de paternalismo latino teria vindo bem a calhar. Um ódio profundo me consumiu nos dias seguintes. Um ódio e uma ansiedade que não me deixavam em paz para dormir ou me concentrar em qualquer outra tarefa. Depois de ter procurado sem sucesso emprego nos quatro bares da cidade, nada mais havia a fazer por ali, mas eu teria mais vinte dias no meio do mato pela frente por já ter pagado o aluguel. A monotonia testava minha sanidade.
Alguns dias depois de ter sido demitido, meu telefone tocou. Era Douglas, um brasileiro que eu havia conhecido em um churrasco em minha antiga casa. Quando ele pegou meu telefone dizendo que iria me chamar para beber qualquer dia, imaginei que fosse apenas a velha mania brasileira de prometer um encontro futuro que jamais irá se realizar. Entretanto, ele ligou, e contei
a ele minhas desventuras. Ele trabalhava e um restaurante na cidade de Swords, a meia hora de Dublin. Disse que veria se era possível me arrumar um emprego e seu restaurante. Falou também que havia um quarto vago em sua casa. De qualquer forma, eu teria que me mudar de Ballymore e, por isso, combinamos de eu ir até lá conhecer o local.
Swords era bem maior do que onde eu vivia, tornando a possibilidade de encontrar um emprego mais possível. Minha dúvida era apenas se eu passaria um mês viajando pelo Reino Unido e depois iria para lá ou se me mudaria imediatamente. Por achar que não deveria desperdiçar um mês de verão viajando, quando as oportunidades de emprego são mais frequentes, resolvi me mudar ao término do mês de junho.
Durante meus primeiros dias na nova cidade, esforcei-me ao máximo para vencer minha dificuldade de entregar currículos. Talvez por orgulho, talvez por falta de hábito, essa simples tarefa é um estorvo para mim. Durante o mês de julho, cheguei a ir a duas entrevistas, a entregar currículos pessoalmente e por email, mas nada aconteceu, o que era esperado devido à minha falta de qualificação para os empregos oferecidos..
E, cada vez mais, me faltava motivação para empreender tal tarefa. Não só por minha ineficiência para procurar emprego, mas também por não estar satisfeito com minha vida na Irlanda. Nada do que busco com minha viagem está aqui. Nem ao menos meu inglês evolui. Além de Douglas, um casal de irlandeses também mora na casa, mas apenas de terça à quinta, o que me obriga a falar português por quase todo o tempo. Essas frustrações me levaram a decidir ir embora. Ficarei apenas mais alguns dias na Irlanda para resolver alguns detalhes antes de viajar, como tentar pegar de volta o depósito que paguei junto do aluguel e fazer um roteiro. Não que planeje seguir um roteiro com disciplina, mas para tão somente ter a impressão de ter um destino meramente traçado. Um destino que finalmente poderá ser tão incerto quanto o que eu havia planejado quando saí de casa.
Apenas para esclarecer: o título do post, obviamente, refere-se à música de Bob Dylan, pois minha vida quase franciscana na Irlanda em nada poderia se comparar à de um integrante dos Rolling Stones.