Published: October 2nd 2011Europe » Germany » Baden-Württemberg » Korntal-MunchingenJanuary 17th 2005
A idéia de ser
au pair surgiu em minha vida quando, aos 19 anos, eu percebi que meus velhos não teriam dinheiro para me pagar a viagem que me haviam prometido (e que eu vinha esperando desde os 15 anos). Através dessa modalidade de intercâmbio, eu mataria os dois coelhos, a vontade de viajar e a falta de dinheiro, com uma paulada só.
À medida que a viagem ia tomando forma na minha cabeça, entre as opções de destino que se apresentavam através das pesquisas na internet, eu optei pela Alemanha em detrimento dos Estados Unidos e Austrália. O principal motivo foi a possibilidade de aprender um novo idioma, mas também uma certa antipatia que eu já nutria então pelo império do Norte.
Alguns meses depois, no dia 17 de janeiro de 2005, desembarquei em Stuttgart, Alemanha, com documentos em dia e USD 50 na carteira (ainda hoje não sei como eu pretendia me virar na Europa, até o primeiro salário, com tão pouco dinheiro). Logo a rotina assumia uma configuração que, apesar dos pesares, eu julguei favorável aos meus anseios de viajar. Na qualidade de
au pair, de segunda a sexta, eu acordava cedo, preparava o
Frühstück dos
pequenos Natha e Luki (eram dois!), os vestia e levava para o
Kindergarten. No intervalo entre o meu retorno à casa e o almoço, eu ordenava a bagunça resultante do despertar de dois demônios e fazia a faxina na baia (limpar o piso, lavar roupa e louça, etc.). Na prática, eu era a empregada doméstica que não cozinhava. Quase sempre, as tardes estavam reservadas para brincadeiras e atividades de pintura, música ou esportes. Claro que era a melhor parte! Em troca das diversas atividades "extras" que eu desempenhava, eu teria todos os finais de semana livres (o que poucos
au pairs tem).
Na época, meu salário era de EUR 210, o que significa que eu vivia permanentemente no perrengue. Para conseguir sobreviver e viajar com essa grana, só mesmo em economia de guerra. E era desta forma que eu preparava a mochila com a comida que eu conseguisse roubar impunemente da despensa e aproveitava os finais de semana para conhecer as cidades próximas da capital de Baden Wurttemberg e, vez por outra, dos estados vizinhos. No período de seis meses em que estive por lá, fiz também algumas viagens mais longas, as quais pretendo relatar nas próximas publicações: Viena,
Praga, Paris, Sardenha... parece impossível fazer tanta coisa com tão pouco dinheiro, mas se você não tiver medo de dormir em estações de trem, ficar ligado nas promoções de passagens (e eventuais caronas) e também conseguir filar umas merendas na casa dos seus anfitriões, vai tirar de letra.
De modo geral, devo dizer que foi uma experiência incrível! Recomendo muito a participação em programas de
au pair para quem está saindo do ensino médio. Porém (ah, porém) quem pretende ser
au pair deve levar em conta que não participará de nenhum intercâmbio acadêmico, muito menos estará de férias. É bastante normal que as famílias anfitriãs solicitem gentilmente que você não apenas cuide das crianças, mas também banque o Negrinho do Pastoreio. Por isso é importantíssimo que você esteja ciente das tarefas que desempenhará e de quanto receberá pelo suor de sua testa.
Ao final de meio-ano, tal qual o jovem Ernesto Rafael
Fuser Guevara após sua jornada latino-americana, eu também voltei outra pessoa da minha primeira experiência em terras estrangeiras. A vivência no exterior me possibilitou a tão sonhada imersão cultural. Na Alemanha aprendi um novo idioma, conheci pessoas de diversos cantos do planeta, perdi preconceitos e amadureci.
Tenho certeza de que não teria aprendido tanto se tivesse viajado como os filhos da elite fazem, em caríssimos programas de intercâmbio
"High school".
Feita esta introdução, deixo algumas dicas para os futuros
au pairs:
Como encontrar uma família? Atenção! Pesquise bastante antes de aceitar um programa do gênero, senão você pode acabar descobrindo que se tratava de outro "programa". Eu encontrei minha
Gastfamilie através da
Familienservice, uma empresa especializada em intercâmbios para Alemanha. Existem outras empresas, maiores e com melhor estrutura, mas sobre as quais não poderei fazer uma avaliação mais completa (
Intercâmbio Cultural,
IE Intercâmbio Cultural e
World Study, entre outras. Leve em conta os custos e a quantidade de tempo livre oferecida.
Dependendo de sua coragem e aversão ao risco, vale a pena pesquisar diretamente por sua família em um banco de dados como o
4familycare (afinal, se você está indo trabalhar, é um pouco irracional que você pague alguém por isso).
Não sei falar inglês/alemão/espanhol/francês. E agora?:
E agora o quê? Se você é do tipo cagão, talvez não seja uma boa idéia ser
au pair. Mas se você realmente está decidido, vá logo atrás de um país cujo idioma você não domine. Existem ótimas oportunidades na França, Dinamarca e Itália. Aproveite sua viagem para aprender uma nova língua e expandir seus horizontes. Em duas semanas você já saberá se virar com um diálogo básico. Compre uma gramática e, se possível, matricule-se em um curso para estrangeiros (utilize sua capacidade de convencimento para conseguir um desconto na mensalidade).
O que levar para a família?:
Nenhuma família te contratará esperando receber presentes. Não faça como eu, que gastei algumas centenas de reais comprando coisas que sequer sabia se iriam gostar. Algumas lembrancinhas do seu país são válidas, mas não mais que isto. Mais vale você "revisar" suas canções de ninar e pensar em brincadeiras simples para entreter seus novos irmãos.
Como falar com o Brasil?:
Há cinco anos, o
Skype não era tão difundido como hoje e eu acabei gastando com ligações internacionais. Hoje, os
smartphones são acessíveis e qualquer restaurante possui
wireless. Você pode pedir um café e falar com o outro lado do mundo de graça. Ah, não esqueça de ensinar seus parentes a utilizar o Skype!
Caso você não goste de computadores, a Embratel possui um serviço chamado
Brasil Direto que possibilita ligar a cobrar de qualquer lugar do mundo.
Juntar dinheiro ou gastá-lo em viagens?:
Não viaje ao exterior pensando em juntar dinheiro. O trabalho ilegal pode ser perigoso e, sinceramente, hoje a economia brasileira vai melhor do que muitas ex-metrópoles européias. Se você possui formação superior, não seja
au pair. Se você tiver um dinheirinho sobrando, converta-o em dólares ou euros e leve junto para poder viajar mais em suas folgas.