Dias 33 a 39 - A maior de minhas expectativas na Europa era Paris. Durante os anos em que planejei minha viagem, a Cidade Luz era o destino mais ansiado por mim. Com a cidade, não me decepcionei. Mas meus dias por lá poderiam ter sido ao menos um pouco mais franceses e menos sul-americanos.
Minha anfitriã em Paris seria Sydelia, uma francesa que vivera vinte e cinco de seus trinta anos no Taiti. Ela não gostava de Paris ou da França. Não é muito divertido ser hospedado por alguém que não gosta do local onde vive. Ao menos ela morava no Quartier Latin, no coração de Paris. Após aguardá-la por duas horas bebendo cerveja em um bar, ela chegou de seu trabalho. Ela escrevia o roteiro de um desenho animado e, por isso, se julgava uma grande escritora. Foi a primeira vez em que me deparei com a arrogância intelectual francesa, algo que logo eu veria ser normal. Em uma generalização bem rasteira, os franceses não sabem de muita coisa que se passa no mundo, acham que a França ainda é o país mais importante do planeta e se ofendem caso você não conheça toda a cultura francesa, e isso
inclui qualquer cantor obscuro ou um filme experimental de 1940. Em sua casa, centenas de livros são expostos em estantes. Entretanto, ela ouve música o dia inteiro. Ninguém consegue ler tanto ouvindo música. Mas ter alguns clássicos na estante é bonito, é bem francês.
Para piorar, Sydelia só gostava de sair para dançar salsa, tango ou forró. Tinha muitos amigos brasileiros, ela disse. Na primeira noite, fomos até um baile de tango à beira do rio Sena. Durante o verão, os franceses levam caixas de som para a beira do rio e ficam lá dançando. Sydelia foi dançar com um vizinho e eu fiquei olhando o rio e a torre Eiffel que podia ser avistada ao longe. Antes de irmos para casa, passamos pelo Louvre, onde fui no dia seguinte. Pelo menos quatro museus poderiam ser construídos com tudo que há no Louvre. Não há razão para que tudo aquilo esteja em um só lugar. O resultado disso é que ninguém vê quase nada, apenas as obras mais famosas, como a Monalisa e a Vênus de Milo. Apesar de estar gostando um pouco mais agora, ainda não sou um grande fã das pinturas, muito menos dos pré-impressionistas. Por isso, não
passei mais do que quatro horas dentro do museu. Saí a tempo de caminhar até a Torre Eiffel e tirar uma centena de fotos da cidade.
Não há como não comparar Londres e Paris. A arquitetura de Paris é bem superior, enquanto Londres é culturalmente mais interessante. O metrô de Londres é melhor e mais organizado. Os londrinos são mais silenciosos e educados, os parisienses, mais falantes. Paris conservou no centro da cidade a verdadeira cultura francesa. Não se veem kebabs por lá, apenas bistrôs, cafés, pâtisseries e brasseries. A estratégia francesa foi valorizar ao máximo o metro quadrado no centro, tornando impossível para um imigrante viver ou abrir um negócio por lá. Os subúrbios parisienses, onde a moda é atear fogo em carros sob qualquer pretexto, ficam bem longe da vista dos turistas. É difícil encontrar um francês que não aprove essa medida. Outras, no entanto, não são muito populares. A ordem social é mantida por leis e policiais rígidos, que proíbem desde roupas estendidas na varanda a danças em locais inapropriados. Londres parece ter mais vida, Paris é mais blasé. Londres é uma festa, e Paris, ao contrário do que Hemingway diz, nem sempre é uma festa.
Paris
me deixava exausto. A cidade é cheia de ladeiras, o metrô não tem escadas rolantes e o sol esteve escaldante durante alguns dias. Na segunda noite, Sydelia foi para a beira do rio de novo, desta vez para dançar salsa. Fiquei conversando com um amigo dela enquanto ela dançava. O amigo não falava muito. Sydelia disse que era por ele ser um intelectual. Era impossível manter um assunto com ela por mais de cinco minutos. Na terceira noite finalmente, após cinco meses, consegui comer sushi. Após o sushi, Sydelia foi dançar novamente. Eu fiquei em casa. Quando voltou, falou um pouco sobre sua vida. Não gostava de ouvir, só de falar.
O melhor momento de Paris foi na escadaria da Catedral de Sacre Coeur. Um artista de rua tocava seu violão tendo ao fundo uma vista panorâmica da cidade. Logo outro artista fazia embaixadinhas e malabarismos com uma bola. Para minha surpresa, Paris não tem tantos artistas de rua, já que eu imaginava que lá seria a capital mundial dos artistas de rua. Mas, provavelmente, as regras para se apresentar nas ruas devem ser rígidas.
À noite fomos a uma boate onde tocava...salsa, para variar. Dois ou três franceses falavam
português. No meio da noite, me senti no de volta ao Rio: “Morro do Dendê é ruim de invadir...” O pior de tudo é que você sente algum orgulho quando vê os franceses dançando funk. Felizmente, aquela seria minha última noite no apartamento de Sydelia. Ela disse que, no dia seguinte, hospedaria outra pessoa. Não acreditei muito. Depois de andar pela cidade por todo o dia, voltei ao seu apartamento para buscar minhas malas. Ela mandou uma mensagem dizendo que se atrasaria. Logo mandou outra dizendo para eu encontrá-la numa ponte onde havia uma festa de forró. Andei uma hora para encontrá-la, pois não tinha mais créditos em meu celular para perguntar onde exatamente era a festa. Cheia de má vontade, às dez da noite, ela voltou para casa para que eu pudesse buscar minhas bagagens. Mudei-me para um albergue que ficava perto de sua casa.
Por ser segunda-feira, o penúltimo dia foi uma perda de tempo, pois quase todos os museus fecham. Não consegui ir aos lugares que me faltavam. No último dia, fui ao Palácio de Versalhes. Lá parece ser a sede do Bonde dos Cabeças Brancas. Por todos os cômodos do palácio, lá estão eles fingindo prestar
atenção às explicações de algum guia. No fim da tarde, quando voltava para o albergue, avistei a Torre Eiffel pela última vez. Fiquei com sensação de que poderia ter sido melhor. Bastaria ter trocado as noites de salsa e forró por uma garrafa de vinho em um bistrô. Por enquanto, fico com Londres.