Périgueux, a bimilenar


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October 9th 2010
Published: January 24th 2011EDIT THIS ENTRY

Périgueux, a bimilenar



Passear por cidades europeias é, na grande maioria dos casos, um sinônimo de passear pela história. Em maior ou menor escala, há sempre uma igreja histórica a ser visitada, um determinado palácio, um conjunto de casas representativas de um certo estilo arquitetônico e um sem-número de monumentos repletos de histórias para contar. Geralmente as capitais são as mais famosas e mais procuradas, pela concentração de atrações que dispõem (vide Paris, Roma, Londres...), mas a verdade é que os caminhos do interior também guardam belas surpresas, na grande maioria das vezes desconhecidas para nós, brasileiros – por acaso alguém já ouviu falar de Périgueux?

Pois bem, Périgueux é a capital do departamento da Dordogne (vizinho da Gironde), e um verdadeiro museu a céu aberto: para os que preferem história antiga, há inúmeras ruínas romanas; aqueles que preferem a Idade Média irão gostar de passear pelas ruelas do centro histórico medieval e de visitar a Catedral St-Front, com um estilo bastante peculiar; em seguida vem os prédios representativos da Renascença... e por aí vai, até as criações contemporâneas: uma viagem no tempo de mais de 2000 anos!

Mas tudo bem, ninguém precisa se sentir ignorante. Eu também não sabia de nada disso e nunca ouvira falar na cidade, que apesar de ser capital conta com apenas pouco mais de trinta mil habitantes. Como fui parar lá, então? Graças a uma revista turística da região Aquitaine que ganhei da escola nos primeiros dias (bem disse que adorei meu kit aluno novo)! Nela havia uma meia página dedicada a Périgueux e uma foto do telhado da Catedral, com suas cúpulas. Pronto! O nome incomum chamara minha atenção, e após visitar inúmeras igrejas góticas em Bordeaux, já estava na hora de uma experiência diferente. Para aquele sábado, o pessoal estava combinando um almoço de final de semana, mas, teimoso que sou quando cismo com algo, resolvi aproveitar o dia de sol e fui sozinho mesmo, na esperança de que a cidade tivesse mais a me oferecer do que a tal igreja que aguçara minha curiosidade...

A viagem de trem é rápida, nem 1h30 a partir de Bordeaux. Era pouco mais de 9h quando desembarquei na estação, em algum lugar a oeste do centro da cidade (já tinha dado uma estudada no googlemaps antes). Fosse algum outro país, eu poderia me orientar pelo sol para descobrir para onde andar, mas
Marché de sábadoMarché de sábadoMarché de sábado

Na praça de la Clautre, em frente à Catedral
felizmente estou na França, e aqui o que não faltam são placas informativas. Logo achei o Office de Tourisme, onde consegui um mapa e várias ideias para o meu dia de descobertas!

Um breve parágrafo de história:
As origens da cidade remontam a cerca de 200 A.C., quando os Pétrocorii do norte (uma tribo de gauleses) se instalaram no local, uma planície às margens do rio Isle. Com a invasão romana, a vila passou a se chamar Vesunna, e conheceu uma época de grande desenvolvimento, ganhando templos, um anfiteatro, banhos, fórum, entre outros. Ao final do século III ergueram-se as muralhas e o nome foi mudado para Civitas Petrucoriorum. No século V a cidade foi cedida aos Visigodos, e no século seguinte dominada pelos Francos. Durante a Idade Média a cidade ganhou importância ao tornar-se sede do bispado do Périgord, mas viu desenvolver-se na vizinhança (literalmente, numa colina a poucos metros de distância) a vila burguesa de Puy-Saint-Front, organizada em torno da abadia de Saint-Front. Em 1240, após anos de conflitos, nasceu a partir da união de ambos os lados a cidade de Périgueux.

Périgueux, une ville, une histoire.



A construção mais emblemática da cidade é a tal da Catedral de Saint-Front que,
Panorama de PérigueuxPanorama de PérigueuxPanorama de Périgueux

Catedral Saint-Front em destaque, na esquerda
com suas cúpulas de inspiração bizantina, destaca-se ao longe na paisagem. A construção é grandiosa e difere-se da maioria das igrejas ocidentais por seu plano em forma de cruz grega, isto é, uma cruz com as “quatro pontas” iguais, com o altar situado no centro. No interior encontramos paredes e colunas austeras, sem adornos (bem diferente das construções góticas), que contrastam com a riqueza dos lustres (lustres esses que, segundo dizem, iluminaram a Notre-Dame de Paris durante o casamento de Napoleão III!).

A Catedral situa-se no alto da colina, em pleno centro histórico, que corresponde à parte intra-muros da antiga vila de Puy-Saint-Front. A praça em frente estava lotada pois, como não podia deixar de ser (afinal, estamos falando da França!), o ‘grande mercado matinal dos sábados’ estava acontecendo: pimentões, beringelas, tomates, cebolas e mais uma grande variedade de legumes, frutas e verduras coloriam a praça e eram disputados entre os presentes. Eu já achara a feira grande, mas mal tinha descoberto que ela se extendia por mais algumas ruas e mais outras duas praças do centro. Ao contrário de Dax (Fui seco, voltei seco), onde havia inclusive seções de roupas e calçados, aqui o mercado era exclusivamente alimentar, então vocês podem imaginar a variedade de itens oferecidos (com direito até ao ”vinho dos filósofos”!). Mais tarde vim a descobrir que a região da Dordogne é um dos corações agrícolas da França, logo mercados de rua são uma atividade recorrente em Périgueux. Há inclusives alguns especiais, como o “Marché au gras” que ocorre durante o inverno (um especial de patês e produtos oriundos de patos) e o mercado de trufas no verão.

Bem, era sem dúvida muito interessante ver uma autêntica exposição de produtos locais, mas, ao contrário das senhoras que estavam ali para escolher os ingredientes do almoço de logo o mais, eu era um simples turista ainda no começo de seu passeio, e não estava afim de levar legumes para passear. Desvencilhei-me da multidão e adentrei uma ruela para explorar o centro antigo. Como toda boa cidade medieval, as ruelas eram sinuosas, estreitas e cheias de pracinhas internas e passagens mirabolantes. Como ainda era cedo, elas estavam tranquilas (acho que a cidade inteira devia estar no mercado!), então pude me divertir durante a exploração, seguindo o bom princípio que aprendi com meu pai do “aquela rua parece mais bonita, vamos ver onde vai dar...”. O centro é compacto e menor que o de Bordeaux, mas acabou que nessa brincadeira passei ali mais que uma boa hora.

Almocei pelo centro mesmo, numa das praças (“Restaurant Saint-Louis”, na Praça Saint-Louis – sim, eu sou muito original; menu a 11 euros), para aproveitar o sol e ver o movimento. Durante o almoço surgiu uma senhora de aspecto bastante peculiar querendo sentar-se comigo para declamar poesias, mas fiz-me de gringo que não falava francês e ela logo se foi – sorte que não reparou no guia turístico de Périgueux, em francês, que eu estava lendo enquanto esperava a comida!

Após o almoço, rumei para a beira do rio Isle e resolvi seguí-lo rumo ao oeste, onde se encontram as ruínas romanas. Há uma pista/ciclovia que acompanha o rio tanto para leste quanto para oeste, chamada de “Via Verde”, é um lugar bem agradável. Escolhi fazer esse caminho mais longo sobretudo pois, segundo lera no guia, passaria por um clube de remo, onde era possível alugar caiaques para fazer passeios no rio. O tal lugar de fato existia, mas em nada se parecia com um clube – sequer havia uma recepção. Entrei, quando vi já estava em meio aos barcos, e ninguém
A ciclovia e o canalA ciclovia e o canalA ciclovia e o canal

Alguns minutos após meu momento de exibicionismo
tinha vindo me receber ou oferecer auxílio. Entre tentar sair com um caiaque nas costas e desistir da ideia, fiquei com a segunda opção e segui a caminhada.

O exercício somou-se ao sol da tarde e logo estava morrendo de calor. Estava de calça, pois tinha saído bem cedo, mas felizmente tinha uma bermuda na mochila. Minha ideia original era fazer a troca num local apropriado (o banheiro do restaurante, por exemplo), mas no meio da cidade era bem sombreado e fresco, não tinha sentido necessidade. Pois lá estava eu, morrendo de calor, no meio de uma ciclovia entre o rio e um canal lateral, sem sinal de ponte para voltar à terra firme. Olhei para ambos os lados, não havia ninguém... pronto, mais apropriado impossível: um momento de exibicionismo, troquei-me ali mesmo, e segui como se nada tivesse acontecido (foi o momento certo, pois pouco depois surgiu gente vindo dos dois lados!).

As principais remanescências romanas encontram-se no Jardin de Vesunna, onde destaca-se a torre homônima. Ela é o que restou de um templo erguido em homenagem à deusa Vesunna, e impressiona pelo seu tamanho, com quase 25 metros de altura! Logo ao lado temos o Museu
Via verdeVia verdeVia verde

Ciclovia de mais de 30 km que acompanha o rio Isle para os dois lados de Périgueux
Vesunna (a criatividade com os nomes é impressionante), um prédio moderno, para contrastar, que abriga algumas outras ruínas romanas descobertas no local, bem como uma grande coleção de artefatos dali retirada. Dizem (e de fato pareceu) ser um bom museu, mas não entrei, pois já tinha visto muita história para um dia só e estava mais interessado em passear de bicicleta para explorar as margens do rio.

A cidade sendo pequena, não há um sistema público de bicicletas como em Bordeaux ou Paris, o jeito é recorrer a particulares. Voltei ao Office de Tourisme para me informar, e logo estava numa loja especializada logo ao lado que não sei como eu não vira antes (não lembro o nome, mas é só descer o Cours Fenelon, é a única loja de bicicletas na rua). O vendedor ficou um pouco surpreso quando perguntei quanto saía para alugar a bike por uma hora, já que eles estão acostumados a empréstimos para excursões, ou seja, de no mínimo 12h, mas negociamos um pouco e logo estava eu montado na melhor bicicleta em que já andei até o momento! (estou longe de ser um especialista, mas se até eu senti a diferença é porque
Fim de tardeFim de tardeFim de tarde

Silhueta da Catedral St-Front
devia ser boa mesmo) Novinha, com amortecimento, roda fina, uma beleza! Fora isso, a ciclovia era boa, sem muitos desníveis, e com uma bela paisagem, logo os quilômetros passaram sem eu me dar conta - no final fiz uns quase 20 km.

Ao fim do meu tour, a hora do trem de volta se aproximava, então fiz um lanche rápido e segui para a estação; era o final do passeio. Como alguém que termina de ler um livro, ficou a satisfação pelas experiências vividas e aquele gosto de quero mais. Qual seria o próximo destino? Não sabia, mas sem dúvida eu não tardaria a descobrir.



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Catedral St.-FrontCatedral St.-Front
Catedral St.-Front

Estilo bizantino
A catedral ao fundoA catedral ao fundo
A catedral ao fundo

Aparecer nas fotos às vezes faz bem
Tour MataguerreTour Mataguerre
Tour Mataguerre

Parte das muralhas que protegiam o centro da cidade, com direito às benditas placas de orientação na frente. Só se perde quem quiser!
Passado, presentePassado, presente
Passado, presente

Passado presente
Torre de VesunnaTorre de Vesunna
Torre de Vesunna

Ruínas de um antigo templo romano


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