Dias 50 a 52 - Meu celular já estava no museu quando cheguei. Não tive a oportunidade de conhecer meu benfeitor. Consegui chegar a tempo na estação para pegar o trem para Paris. Em Paris, dois metrôs me levaram ao local onde encontraria minha carona. Um homem de cinquenta anos me aguardava junto a um jovem franco-africano. Esperamos por meia hora por outra pessoa que não apareceu. O homem não conversou muito no princípio, apenas o jovem cuja família era da Costa do Marfim. Seu nome era Guillaume. Paramos para descansar após duas horas na estrada e o homem resolveu começar a falar. Ele estava indo para a Alemanha comprar carros para revendê-los na França. Alguns anos antes, ele comprava carros na Alemanha para revendê-los no Senegal. Ou, às vezes, os comprava no Japão e os revendia nos Estados Unidos. Havia viajado meio mundo dessa forma. “Você quer levar um carro pra África?”, ele me perguntou, “É muito fácil!”. Apesar da proposta tentadora, achei melhor declinar o convite, visto que minha falta de experiência no assunto certamente me faria ser depenado por todos os policiais corruptos que se encontram em fronteiras africanas. Ele me deixou seu telefone caso eu mudasse de
idéia.
Guillaume e eu saltamos em Estrasburgo. Ele havia morado lá uns anos antes e iria visitar sua família. Antes que encontrasse minha anfitriã, fomos comer e beber algumas cervejas. As melhores e mais baratas cervejas da França estão por lá. Devido à proximidade da Alemanha, e o fato de ter sido algumas vezes parte da Alemanha, sendo a última durante a Segunda Guerra, Estrasburgo guarda muito da cultura alemã. Comecei a provar desta cultura em um bar onde a dona exibia seu cachorro morto empalhado na entrada. Um amigo de Guillaume se juntou a nós. Ele pagou a conta para me ajudar a economizar dinheiro. Combinamos de beber nos próximos dias.
Cheguei à casa de minha anfitriã. Myriam era uma estudante que morava com outros dois estudantes. Um tcheco que viajava com seu violão e o tocava com perfeição também estava sendo hospedado naquele dia. Myriam preparou Tarte Flambée, o prato típico local, uma espécie de pizza francesa. Depois de comermos, saímos todos para beber no centro da cidade. Conversamos por algumas horas e voltamos. Myriam e seus colegas eram, finalmente, anfitriões normais.
O tcheco me acordou tocando In the jungle do Rei Leão. Acho que nunca vi alguém
tocar violão tão bem. Saímos para dar uma volta pelo Jardim Botânico Voltamos rapidamente, pois o tcheco tinha que pegar um trem e eu e Myriam iríamos para o Festival do Chucrute. O outro colega de Myriam que iria conosco desistiu, e o problema era ser ele o dono do carro que nos levaria até a pequena cidade onde ocorria o festival. Sugeri que ele me emprestasse o carro. Ele concordou, mas me advertiu que era um carro muito velho. Imaginei que, na França, nenhum carro poderia ser muito velho. Eu estava errado. Era uma van com mais de vinte anos que não passaria em nenhuma vistoria. O carro era cheio de macetes. Após cinco meses sem dirigir, era um ótimo recomeço. Dirigindo vagarosamente no princípio, levei o tcheco a rodoviária. Estacionei em um lugar proibido e um policial logo veio reclamar. Eu não tinha certeza se poderia ou não dirigir na França com minha habilitação. Por sorte, ele começou falando com a Myriam. Ele apenas a repreendeu e mandou sairmos rápido dali. Depois falou algo comigo e eu concordei. O tcheco nem teve tempo de se despedir. Ganhei confiança e logo pude acelerar mais um pouco. Não muito, pois
o carro tinha apenas quatro marchas e mal passava de noventa por hora. Pela primeira vez eu vi que a seta funciona para alguma coisa que não apenas avisar aos outros onde vou entrar, e sim fazê-los diminuir a velocidade de forma a me ajudarem. Dirigir na Europa é um prazer mesmo com um carro horroroso.
O Festival do Chucrute faz jus ao seu nome. Por todas as ruas da cidade franco-germânica, cuja tradução de seu nome é algo como Cidade do Chucrute, o cheiro do repolho azedo pode ser sentido. Assim que chegamos, procuramos um lugar para comer a iguaria. Um galpão abrigava dezenas de franceses e alemães dispostos a consumir enormes quantidades de chucrute. Foi um dos momentos mais felizes de minha vida ter à minha frente um prato com chucrute, lingüiças alemãs e bacon acompanhado por uma cerveja alemã. Andamos pelas ruas e encontramos locais onde se mostrava como o chucrute era produzido e também outro legume azedo que não consegui identificar. Comemos tudo que nos ofereciam. Às seis horas da tarde, o chucrute dá lugar à Tarte Flambée. Mais uma rodada de cerveja e comida e eu estava pronto para voltar. À noite tive forças apenas
para ver um filme.
Estrasburgo foi a mais grata surpresa da viagem. No dia seguinte, quando enfim caminhei por suas ruas, descobri uma cidade com magnífica arquitetura. O lugar chamado Petit France reúne em alguns metros quadrados uma beleza única. Infelizmente, a bateria de minha câmera acabou logo cedo. Infelizmente, era segunda-feira, dia de museus fechados. No fim da tarde, Guillaume me chamou para tomar cerveja. Myriam se juntou a nós. Bebemos até as duas horas da manhã, quando o dono do bar nos expulsou. Não é comum encontrar europeus disposto a conversarem até tarde em um bar bebendo cerveja. Por isso, até o momento em que alguém de origem africana e um brasileiro se juntaram, ainda não tinha tido tal experiência na Europa, algo tão comum em minha vida. Em dois dias, após cinco meses, eu dirigi, comi até não agüentar mais e fui expulso de um bar. Estava em casa novamente.
Foi o último dia da primeira parte de minha viagem pela França. Sigo para a Itália após rápida passagem pela Suíça. Em um mês, volto à França.
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Rio, 08 de novembro de2009
Diego,
Estou, paulatinamente, colocando em dia sua viagem, pois você me forneceu o site muitos meses após começar estas viagens.
Acho estas viagens uma fonte inesgotável de cultura. Parabéns, por ser tão destemido e ir de encontro a seus ideais.
Diariamente peço a Deus que continue a iluminar seus caminhos, para que o êxito seja constante em sua vida.
Abraços. sei pai.
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Rio, 08 de novembro de2009
Diego,
Estou, paulatinamente, colocando em dia sua viagem, pois você me forneceu o site muitos meses após começar estas viagens.
Acho estas viagens uma fonte inesgotável de cultura. Parabéns, por ser tão destemido e ir de encontro a seus ideais.
Diariamente peço a Deus que continue a iluminar seus caminhos, para que o êxito seja constante em sua vida.
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