Dias 22 a 24 - Em um mesmo dia, acordei na Inglaterra, passei boa parte do dia na França e dormi na Bélgica. Não apenas cruzei três países, mas três línguas distintas: inglês, francês e holandês, ou flamengo, como preferem alguns belgas. Entretanto, é mais fácil se comunicar na Bélgica, onde se fala uma língua completamente diferente, mas quase todos falam inglês, do que na França, um país de língua latina. As poucas horas em que estive na França já foram suficientes para que eu pudesse perceber que o desprezo dos Frances pelo inglês não é apenas um clichê. Após pegar um barco de Dover a Calais, procurei por um trem que me levasse a Bruges. Na estação de trem ninguém falava inglês. Com meu paupérrimo francês, consegui uma passagem sem que o vendedor me explicasse exatamente como eu chegaria a Bruges. Desconfiei que tivesse que trocar de trem em Lille, e estava certo. Quando cheguei a Lille, no entanto, não fazia a menor idéia de onde pegar o trem para Bruges, já que em nenhum lugar estava escrito o nome da cidade. Mostrei meu bilhete a um homem que trabalhava na estação. “Ah, Bruges!”, ele disse, como se fosse solucionar
meus problemas imediatamente. Entrou em uma sala e saiu falando algo como “Abajour Garçon Zidane Reverse”. Fiz uma cara de bobo e ele repetiu a informação. Mantive minha expressão de idiota, mas ele perdeu a paciência e me desprezou com um gesto de suas mãos. Fiquei parado com o bilhete sem saber onde ir. Andei pela estação e encontrei um guichê com uma bandeirinha da Inglaterra. O homem consegui me dizer onde ir. Só dentro do trem descobri que o outro homem tinha dito Anvers, Antuérpia em francês.
Em Bruges tudo mudou. Policiais falavam inglês fluentemente e faziam o possível para me ajudar a chegar a casa dos meus primeiros anfitriões belgas. No ônibus, a motorista também falava inglês. Mostrei a ela o endereço onde queria chegar e ela perguntou às outras cinco mulheres do ônibus, em holandês, se alguém conhecia a tal rua. Uma velhinha disse que conhecia. Todos começaram a falar em holandês e a rir olhando para mim. Usei minha cara de idiota novamente. Quando saltei do ônibus, a motorista disse que a velha me ajudaria. “Mas não vá beijá-la!”, disse tão logo saltei do ônibus. A pobre senhora não falava inglês. Caminhei uns cinco minutos ao
seu lado em silêncio. Ela falou algumas coisas em holandês, fez alguns gestos com as mãos e riu. Eu ri também. Cheguei à rua. Guy and Marjan haviam me avisado que haveria uma festa lá, mas o que encontrei foi um pouco diferente do que imaginava. A festa consistia em um telão passando a primeira versão de Mamma Mia! e uma mesa com pães e vinhos. Guy me recebeu servindo vinho. Ficamos conversando na rua. Um amigo dele, ao saber que eu planejava viajar por dois anos, não deixava mais que eu fumasse meus cigarros. “Fume o meu. Você precisa economizar!”, ele dizia. Guy me contou que a prefeitura financia esse tipo de festa para que os vizinhos se conheçam melhor. Basta fazer o pedido que eles pagam tudo, dos vinhos aos filmes. É uma forma de evitar que velhinhos morram solitários em suas casas e só sejam encontrados um mês depois. E é uma forma do Estado de Bem-Estar Social tentar corrigir suas próprias e indecifráveis mazelas, como a depressão e o isolamento social. Para um brasileiro, é um tanto surreal imaginar relação tão amistosa com um órgão público. Para os belgas, parecia absolutamente natural.
Dormi como uma pedra
por dez ou doze horas. Um café da manhã belga me aguardava, com chocolates, pasta de amendoim, queijos e pães. A boa comida começava a voltar. Após quatro meses entre Irlanda e Inglaterra, havia começado a esquecer que comer é um prazer. Em meus primeiros passos pelas ruas de Bruges, pude sentir novamente o cheiro da boa comida no ar. Guy, Marjan e Hanna, uma das filhas do casal, me acompanharam. Hanna tem Síndrome de Down, mas, mesmo ela, falava holandês, inglês e francês. Guy contava a história de Bruges com entusiasmo. Contava como a outrora próspera cidade portuária foi abandonada e permaneceu intacta por anos, até que os turistas a descobrissem. Desprezada por alguns por ser excessivamente turística ou apenas um falso conto de fadas, Bruges, ainda assim, é um dos principais destinos turísticos europeus. Com o lançamento do filme “In Bruges”, que em português ganhou o estranho título de Na Mira do Chefe, quem não conheça a cidade passou a conhecê-la. Isso significa que por lá são encontrados em abundância os meus dois maiores inimigos: o Bonde dos Cabeças Brancas, formado por europeus septuagenários, e o Bonde Japonês, formado por japoneses de diversas idades. Basta estar calmamente contemplando
algo que um dos dois grupos não tarda a chegar e acabar com sua paz. Geralmente o guia do grupo se posiciona a frente do que você está admirando e passa a dar suas explicações que ninguém demonstra muito interesse em ouvir. Resta apenas esperar ou ir embora do local.
A Bélgica não tem muita razão para existir como país. Divida entre a região de Flanders, onde se fala holandês, e a Valônia francesa (além de uma pequena parte alemã), os belgas não se identificam com seu próprio país. Alguns dirão que se sentem mais europeus do que propriamente belgas. Entretanto, o movimento separatista, embora existente, é restrito a radicais de extrema direita. A identificação entre flamengos e holandeses é maior do que a dos primeiros com os valões. Para quem já esteve na Holanda, é como retornar ao mesmo país. A comida, o hábito de andar de bicicleta, a arquitetura, tudo é parecido. Afinal, os dois territórios um dia formaram um mesmo país. Antes disso, porém, a Bélgica, sob o domínio do Império Espanhol, ficou restrita aos católicos, enquanto os protestantes formaram a Holanda e evitaram que Filipe II avançasse até lá. Sendo conquistada e libertada diversas vezes, a
Bélgica é uma espécie de saco de pancadas da Europa. Ocupada com facilidade nas duas guerras mundiais, o país hoje abriga enormes cemitérios devido às diversas batalhas que tiveram lugar em seu solo, mesmo quando a Bélgica não tinha nada com a história.
Ainda sob o pretexto de que eu deveria economizar meu dinheiro, Guy e Marjan compraram crepes e trufas para mim. Quando retorne, comprei uma garrafa de vinho para o jantar como agradecimento. Um prato típico foi servido: endívia enrolada com presunto e molho de queijo. Algo bom, de verdade.
Saímos à noite para assistir a uma apresentação de tango em que o filho do casal tocaria seu violino. Cerca de vinte casais belgas dançavam tango em uma praça. Fomos para um bar. Logo aprendi que as cervejas são o motivo de maior orgulho para os belgas. Os números acerca da quantidade de espécies de cervejas divergem: entre trezentas e sessenta e mil, vários números me foram ditos. Na primeira noite bebi umas seis marcas. Por ter me acostumado com a Guiness irlandesa, já não é tão difícil tomar uma cerveja belga. Algumas, sim, tem um gosto um tanto peculiar; nada, entretanto, insuportável. Fomos a outro bar, conversamos
bastante e voltamos.
Mais um dia acordei e fui direto para a mesa do café da manhã. De lá não saí até o almoço, pois passei horas conversando com Guy e Marjan. De eutanásia (a mãe de Marjan havia se submetido a um suicídio assistido) a filmes brasileiros, tudo ensejava longas conversas. As igrejas e monumentos podem esperar, pois eles não dizem tanto sobre um país quanto seu próprio povo pode dizer. O almoço não foi nada tradicional, apenas almôndegas com batatas.
Percorri mais alguns lugares, subi quatrocentos degraus para ver Bruges do alto, andei de barco pelos canais da cidade e comi mais chocolate. Um problema começa a me atormentar. Ainda tenho meio mundo para conhecer, mas minha lista de lugares onde desejo voltar começa a crescer. E com as experiências que tive por lá, especialmente no jardim de Guy e Marjan, com toda a comida, tudo que pude aprender sobre a Bélgica, Bruges é um lugar para retornar. Ainda houve tempo para mais uma noite de conversa e cervejas. No dia seguinte, quando me levaram à estação, pela primeira vez fui abraçado em uma despedida, e. para um europeu, isso não significa pouca coisa