Dias 30 a 32 - Ir a Bruxelas é como viajar no tempo. Não para o passado, devido aos seus prédios históricos, mas para o futuro. O futuro de uma Europa que não dá a devida importância ao seu maior problema: a imigração. Se Londres é a cidade com maior quantidade de imigrantes e a Antuérpia com a maior diversidade de países, Bruxelas deve ter a maior proporção de imigrantes. Apesar de estar em na região de Flanders, oitenta por cento dos habitantes falam francês, o que facilita a vinda de imigrantes das antigas colônias francesas, como Argélia, Marrocos e Senegal.
Cheguei ao endereço dos meus anfitriões rapidamente, mas eles não estavam em casa. Disseram que voltariam em duas horas. Deixei minha mochila com um vizinho português e fui comer alguma coisa. Kebab, obviamente. Não há outra opção em Bruxelas. Comecei a ter que me virar em francês. Na capital belga, oitenta por cento dos habitantes são francófonos. Quando retornei ao apartamento, que ficava no prédio mais feio da cidade, fui recebido por Esteban, um argentino casado com Lisa. Perguntei para ele onde estavam os belgas que não na rua. Ele disse que estávamos em um gueto marroquino.
Esteban e Lisa
queriam aprender português, pois viajarão para o Brasil em breve. A belga aproveitou para tirar todas suas dúvidas. A simpatia inicial dela não durou muito tempo. Não há como entender por que razão ela participa do couch surfing com tamanho entusiasmo. O casal vive em um pequeno apartamento de apenas um cômodo, ou seja, os hóspedes ficam o tempo todo no mesmo ambiente. É compreensível que ela queira dormir e precise de silêncio. O que não dá para entender é a razão de eles receberem pessoas a todo o tempo. Quando cheguei, um australiano já estava lá há uma semana. Em alguns meses, eles hospedaram cerca de cinquenta pessoas. Mal sabem o nome dos que chegam. Às onze horas, as luzes do apartamento são apagadas e você é obrigado a dormir. Às oito da manhã você é posto para fora. Como já estou acostumado a isso, apenas procuro um parque onde um banco confortável possa ser minha cama por algumas horas. Na primeira noite, no entanto, antes de dormir, eles pediram que eu indicasse um filme brasileiro para vermos. Eles já tinham visto quase tudo que eu poderia indicar, por isso vimos O Cheiro do Ralo. Esteban não parece ter
entendido muito bem o filme, mas disse, com aquele entusiasmo que só os argentinos têm, que o filme era boníssimo.
Esteban é um latino-americano revolucionário. Um tipo daqueles que gosta de preservar as tradições indígenas. Ele quer que todas as línguas indígenas sejam oficializadas. Já posso até ver a prosperidade que pode ser alcançada após tão importante decisão. Ele não acha que o continente sul-americano deve se armar mesmo com Chávez aumentando cada vez mais seu arsenal. Se Chávez invadir a Argentina, ele disse, devemos deixar, pois nada vale uma guerra. Há setenta anos alguns idiotas pensaram o mesmo. Ele logo falaria das Malvinas. Nada é mais chato do que um argentino falando sobre as Malvinas.
Como em quase tudo, Esteban também estava errado quando disse que eles moravam em um gueto marroquino. No dia seguinte, o que descobri, na verdade, foi que existem alguns guetos belgas em Bruxelas. A cidade é dominada pelos árabes. Não é à toa, portanto, que é a cidade mais suja e desorganizada que já visitei. Mesmo correndo o risco de parecer preconceituoso, o que se vê em Bruxelas é o resultado de um choque cultural que em breve será visível em toda a Europa.
Não que os árabes sejam ruins, que sejam terroristas. Mas a Europa, ou qualquer outro país desenvolvido, atingiu um nível de prosperidade não apenas por políticas econômicas, e sim, acima de tudo, por estar estabelecida sobre valores morais e religiosos cristãos - e estes são completamente distintos dos valores islâmicos. Ao abrir mão desses valores em prol de uma política humanista liberal, a Bélgica compromete seu futuro seriamente. Se os imigrantes devem ser impedidos ou não de entrar no país, isso é outra história. Entretanto, se entram, devem ser submetidos às regras e valores locais, a não ser que os belgas não se importem em perder o status de país desenvolvido. Em Bruxelas, compreendi Sarkozy e sua cruzada contra o véu islâmico. Compreendi que não se trata de impedir a liberdade religiosa, mas sim em submeter os muçulmanos a um dos fundamentos principais da cultura ocidental: a igualdade entre homens e mulheres.
Bruxelas tem uma belíssima praça central, e só. Perto da praça fica a estátua do Manneken, o menino mijão símbolo do Botafogo. Todavia, a estátua do Manequinho botafoguense é menos decepcionante que a original, pois seu tamanho frustra boa parte dos visitantes. O resto da cidade é um
amontoado de ruas sujas, lanchonetes vendendo kebab e camelôs. As ruas próximas à estação de trem nada ficam a dever ao Saara carioca. A única diferença é que por lá podem ser encontradas prostitutas em vitrines, como em Amsterdã. Por ser segunda feira, todos os museus estavam fechados. Voltei para casa. Esteban receberia alguns amigos argentinos e, por isso, Lisa cozinharia mariscos, o prato mais tradicional da Bélgica. Saí para comprar cerveja com Esteban. Ele voltou a falar sobre política sul-americana. Concordei com tudo e ele ficou satisfeito. Logo eram três argentinos revolucionários falando sobre índios e outras baboseiras. Os mariscos não eram ruins, tampouco inesquecíveis. Lavei a louça da forma que Lisa ordenou que ela fosse lavada. Deixei cair uma gota d’água no chão e ela fez cara feia. Tão logo os argentinos saíram, as luzes foram apagadas.
Em meu último dia peguei um trem e fui visitar o Museu da África, onde conta-se um pouco da história da colonização belga no Congo, sem, no entanto, maiores menções ao terrível legado deixado por lá após a independência do país africano. Apenas trinta congoleses com curso superior e uma irremediável divisão tribal entre tutsis e hutus que resultou em
um dos maiores genocídios da História são os resultados da colonização exemplar pretendida por Leopoldo II. Quando voltei, não havia ninguém em casa. Esperei sentado na rua. O australiano chegou e esperou comigo.
Na manhã seguinte, Esteban me ajudou a encontrar o ônibus que me levaria a Paris. No caminho até a estação, assisti a uma cena que exemplifica o choque cultural existente na cidade. Enquanto estávamos no metrô, um marroquino entrou no trem. Mesmo havendo dezenas de lugares disponíveis, ele se sentou ao lado de uma mulher belga sozinha. Logo a mulher começou a reclamar de algo, provavelmente por ele ter tentado tocá-la. O marroquino levantou, cuspiu na mulher e mudou de lugar. Humilhada, a mulher deixou o trem. A Europa deve decidir apenas uma coisa: se irá aceitar mais imigrantes ou não. Estando eles aqui, o Islã não deve ser mais a tal submissão, mas sim as leis e os valores ocidentais. Afinal, eles precisam começar a entender que burcas e cusparadas não fazem parte de uma sociedade saudável.
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Marroquino é foda mesmo. Fico imaginando como deve ser a vida no Marrocos. Se como imigrantes eles já fazem essas coisas, em seu território então, deve ser pior ainda. A impressão que dá é que deve ser um país sem leis.
Tá faltando alguma frase no final... "...cusparada não....?"
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