Dias 25 a 29 - Cheguei a Gent sem muitas informações sobre o endereço de meu anfitrião. Ele apenas havia me dado o nome de sua rua e seu telefone. Poderia ser suficiente, não houvesse a bateria do meu celular terminando sem que fosse possível carregá-lo, já que meu carregador irlandês não mais se adaptava às tomadas locais. Chovia bastante e ninguém conhecia a rua. Comecei uma busca por um cartão telefônico. Quase ninguém mais vende cartões telefônicos. Quando consegui encontrar um cartão, entendi o porquê. Quase não existem mais telefones públicos na Bélgica. E, claro, você só percebe isso quando procura por um, algo que eu não havia precisado até então. Mais de uma hora depois, consegui telefonar. O cartão tinha cinco euros de crédito, mas a ligação custava um euro e pouco o minuto. Disse a Jochen onde estava na esperança de que ele se prontificasse a me buscar imediatamente. Em vez disso, ele apenas falou o nome holandês de algumas ruas e me deu um local como referência que, segundo ele, seria bem conhecido pelos jovens. Meu crédito acabou sem que eu soubesse para onde ir. Nenhum jovem conhecia a tal referência. Estava quase indo procurar um albergue
quando vi um jovem cabeludo com cara de bicho-grilo. Lembrei que Jochen, na foto do Couchsurfing, se parecia com um bicho-grilo. O cabeludo, claro, conhecia o lugar. Caminhei mais alguns minutos. Havia atravessado toda a cidade com meus quinzes quilos nas costas. A mochila estava rasgando. Encontrei Jochen. Pense em um maconheiro e provavelmente você pensará em alguém parecido com ele.
Jochen morava no lugar mais feio que poderia existir em Gent. Seus vizinhos eram refugiados sérvios. Sua casa tinha um aquário onde dois peixes lutavam pela vida em meio ao lodo. A louça não era lavada há meses. Dormi no quarto de alguém que não estava lá, pois Jochen dividia a casa com mais algumas pessoas. Ele não era muito de falar. Quando falava, não saía muita coisa que prestasse. Ele estava apenas disposto da oferecer sua casa gratuitamente, nada além disso. Comi alguma coisa e fui com Jochen e mais um amigo a um show em um bar. Era uma banda de um amigo dele. Ele disse que o ritmo era experimental.
O bar estava lotado. O líder da banda, a quem Jochen considerava um amigo, apenas o cumprimentou rapidamente, sem demonstrar saber exatamente de quem se tratava.
Mais cervejas belgas me foram indicadas. Os pais de Jochen e um primo dele chegaram. Segundo ele, sua mãe adora música experimental. O pai me indicou mais algumas cervejas, enquanto o primo me contava toda a história da Bélgica desde os primórdios da humanidade. Depois de me fazerem experimentar umas cinco cervejas diferentes, me disseram que misturar não era bom. “Você vai ficar mal bebendo desse jeito”, disse o pai. Justo ele, que me ofereceu as cervejas mais fortes. Enquanto voltávamos para casa, Jochen resolveu começar a falar um bocado. Durante os trinta minutos do trajeto contou sobre seu irmão esquizofrênico. Depois, já em sua casa, às duas e pouco da manhã, decidiu me contar a história de Gent. Seu primo já tinha me contado tudo no bar, mas ele decidiu contar novamente. E, com sua fala mansa de maconheiro, a história durou mais de uma hora. Após mostrar um livro de pinturas belgas, ele me liberou para dormir.
Acordei um pouco tarde, mas tive tempo suficiente para andar por Gent, que não tem muitas atrações. Além disso, depois de Bruges, é difícil ser impressionado pela cidade seguinte. Em Gent ao menos se encontra em profusão o prato típico da
Bélgica: batata frita. O país se diz inventor das batatas fritas, e, de fato, eles sabem fritar batatas. Não sei qual técnica é empregada, mas há algo de diferente. Acompanhada de salsichas, as batatas são servidas nas dezenas de Frituurs existentes. É a refeição perfeita para um fim de noite.
Por ter acordado cedo e dormido tarde na noite anterior, Jochen, para minha sorte, já estava dormindo quando voltei. Não tive que ouvir mais histórias sobre esquizofrênicos. Pude passar algum tempo sozinho em uma casa, algo raro em minha viagem. Quando acordei, arrumei minha mochila e aguardei que ele voltasse do trabalho para me despedir. Jochen e Gent não me deixarão saudades.
Outra curta viagem de ônibus me levou à Antuérpia. A única coisa que eu sabia sobre a Antuérpia era que a cidade já sediou uma Olimpíada. Não sabia que lá estava uma das três mais importantes escolas de moda da Europa. E o efeito causado por isso é evidente: as grifes mais famosas do mundo estão por lá, logo todos se vestem com extrema elegância. Com minhas roupas velhas, meu casaco de dez anos de idade e minhas blusas maltratadas pelas máquinas de secar européias, se
eu por um segundo me sentasse em um meio fio certamente me tomariam por um mendigo.
Aguardei por alguns minutos que meu anfitrião fosse me buscar na rodoviária. Koen era um holandês que viera estudar na Antuérpia. Para um holandês, não faz muita diferença morar em qualquer um dos dois países.
Koen parecia não ter amigos. Pela primeira vez percebi que algumas pessoas solitárias utilizam o Couchsurfing para ter alguma companhia por alguns dias. Ele não parecia ter muito interesse por viagens ou novas culturas. Parecia querer apenas alguém para conversar um pouco. Seu telefone não tocou durante os três dias em que estive por lá.
Mais uma noite de cervejas belgas em um bar. Desta vez, um bar de Jazz. O Jazz é o principal ritmo musical belga. O fato de Koen gostar de futebol ajudou bastante a termos assunto, pois, caso contrário, seria um pouco difícil, já que ele não flava sobre viagens e nem sobre sua vida. Europeus, em geral, não falam sobre sua vida particular. Sobre mulheres, nem pensar. Parecem velhas escandalizadas se você toca no assunto. Ficamos apenas no futebol.
A despeito da beleza de suas cidades, e a Antuérpia não é exceção, a Bélgica
não é um país com uma história das mais interessantes. Exceto por suas famosas batalhas, como Ypres e Waterloo, nada de relevante para o destino da humanidade se passou por lá. Na maior parte das vezes, eles apenas assistiram pessoas se matando em seu território. Sem muitas opções de museus, Koen me levou a uma galeria de arte moderna, algo que não tenho qualquer interesse. Ele tentou me explicar alguns quadros, mas, se eu insistisse um pouco em algum detalhe, percebia que ele tampouco entedia muita coisa do assunto. Afinal, assim são noventa e nove por cento dos freqüentadores de museus.
Na segunda noite Koen insistiu com a história do Jazz. Um bar cheio de velhos e cervejas. Depois de mais de uma hora, ele percebeu que eu não estava gostando muito. Pensei que, então, iríamos para um lugar mais animado. Ele me levou para o bar mais barato da cidade, que, logicamente, atrai os tipos mais estranhos. O ambiente era de dar medo. Bebemos mais uma cerveja diferente e partimos. Finalmente encontramos uma festa animada em um bar de estudantes, mas Koen não se empolgou. Apesar da cerveja gratuita, ele fazia questão de demonstrar sua insatisfação com o ambiente.
Fui ao banheiro e um belga puxou assunto enquanto eu estava utilizando o mictório, o ato mais condenável que um homem pode cometer em um banheiro. Ele perguntou de onde eu era e passou a filosofar: “Não importa de onde somos, todos nós comemos o mesmo pão, somos todos humanos, não importa a cor”. Ele continuou falando mais alguma coisa enquanto eu tentava sair de perto. Não tenho mais paciência com estudantes. Voltamos para casa.
Mais um dia normal e outra noite monótona. Sem ter o que fazer, baixei Tropa de Elite para o holandês conhecer o Rio um pouco melhor. Ele ficou meio assustado, perguntou se aquilo era verdade e depois não tocou mais no assunto. Saímos para procurar um bar para assistir Brasil x Argentina. O jogo começaria às duas da manhã, logo foi impossível achar um bar que o transmitisse. Assistimos ao jogo pela internet. Dormi, acordei, arrumei minhas coisas e parti para Bruxelas. Em algumas horas minhas roupas já não seriam tão imprestáveis.
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Afinal, a bolsa rasgou?? Vc comprou outra?? Assim não dá. Precisamos de informações mais precisas.
Ahahaha, conversar no banheiro.... Acho que vc puxa assunto !!!
Talvez algum amigo nosso posso lhe explicar a razão de puxarem assunto comigo no banheiro...
ahahah Vou perguntar !!!!
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GentResolvi investir um pouco...
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Afinal, a bolsa rasgou?? Vc comprou outra?? Assim não dá. Precisamos de informações mais precisas.
Ahahaha, conversar no banheiro.... Acho que vc puxa assunto !!!
Talvez algum amigo nosso posso lhe explicar a razão de puxarem assunto comigo no banheiro...
ahahah Vou perguntar !!!!
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